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José Diogo Quintela

Minha culpa, minha tão grande culpa

Deixei de usar uma série de palavras como unha, lista, magia, ovelha, maré e nódoa negras.

José Diogo Quintela 30 de Setembro de 2017 às 00:30
Deixei de usar uma série de palavras e expressões que, ignorante, desconhecia serem racistas. Eliminei unha, lista, magia, ovelha, maré e nódoa negras. Não peço chocolate preto, nem cerveja preta, nem azeitonas pretas. Não canto 'A moda das tranças pretas'. Não uso expressões como 'a coisa 'tá preta', ou 'preto no branco'. Abro só uma excepção para 'com um vestido preto não me comprometo'. É que, se introduzir uma pausa entre 'vestido' e 'preto' fica 'com um vestido, preto, não me comprometo'. Embora me esteja a dirigir a um africano como 'preto', faço-o enquanto travesti. Ambos vítimas, as nossas opressões cancelam-se.

Mas o policiamento da linguagem não me chega. Por isso comecei a pedir desculpa pela escravatura. Estreei-me com um negro brasileiro a quem, humilde, solicitei perdão:

Eu - Amigo, peço desculpa por, certamente, um dos meus 8192 dodecavós do séc. XVI ter participado no tráfico de escravos.

Ele - Não é preciso.

Eu - Piscaste-me o olho?

Ele - Sim. Somos sócios. Também descendo de negreiros. Os meus antepassados são do reino de Oió, actual Benim. Vendíamos escravos aos portugueses. Os meus avós fizeram negócio com os teus.

Eu - Isso é falso. Nós éramos os opressores, vocês eram as vítimas.

Ele - Éramos fornecedores, vocês retalhistas.

Eu - Sofres de Síndrome de Estocolmo.

Ele - Mau! Impões-me a tua visão dos acontecimentos? Isso é colonialismo. Desvalorizas a minha história, só para apoucares a tua e, pedindo perdão, sentires-te virtuoso. Reforças o estereótipo do negro infantil, sem agência. Objectificas-nos, como faziam os negreiros. Já agora: esse penitenciar por pecados de antepassados é uma coisa católica, não é?

Eu - Disparate. Os católicos têm pecados até ao Adão, nós é só até D. Afonso Henriques.

Ele - Ok. E obrigado.

Eu - Porquê?

Ele - Pelo samba. Pelo candomblé. Pelo Pelé. Sem negros no Brasil, não havia nada disso. A canarinha nunca ganharia nada só com guaranis.

Eu - Dares crédito pela cultura miscigenada do Brasil é absurdo.

Ele - É, não é? Ofereceres débito pela escravatura também. No fundo, és uma espécie de António Ferro ao contrário. O Estado Novo enaltecia as partes bonitas da Expansão, para afirmar a superioridade portuguesa e orgulhar-se do passado. Tu destacas as partes feias, para afirmar a ignomínia portuguesa e envergonhares-te do passado. Ele responsabilizava-se por feitos de outros, tu culpas-te. É a mesma apropriação. O polir da história, dos fascistas, para empolar façanhas, é igual ao sujar da história, dos progressistas, para amesquinhá-las. Um doura, o outro mancha. Ambos crêem no excepcionalismo de Portugal: ele na glória ímpar, tu na infâmia singular. Quer tu, quer o António Ferro, branqueiam a história.

Eu - 'Branquear'? Isso é racismo!

Segunda via, segunda vida 
Segundo o Instituto Nacional de Estatística, a esperança média de vida em Portugal é agora de 77,61 anos para os homens e de 83,33 anos para as mulheres. Mais um exemplo clássico de misoginia, com os homens a irem--se embora e deixarem às mulheres todo o trabalho doméstico. Enfim, ainda há muito trabalho a fazer para mudar mentalidades.

Pela minha parte, tenciono fazer o seguinte: viver tranquilamente até aos 77,60. Dias antes de chegar ao limite da esperança de média masculina, vou à Conservatória do Registo Civil e mudo de sexo. Ganho quase 6 anos de vida.

A angústia do dirigente antes do penálti
Antero Henrique, ex-dirigente do Porto, agora no Paris Saint-Germain, tem um berbicacho para resolver. Neymar e Cavani andaram à bulha por quererem ambos marcar os penáltis. Como Neymar é a estrela, o clube ofereceu a Cavani um milhão de euros para deixar de os marcar. Não funcionou.

Antero não percebe. Em Portugal, por muito menos que um milhão, conseguia que algumas pessoas não marcassem penáltis. Está bem que não eram jogadores, eram árbitros que apitavam o Porto. Mas era uma técnica comprovada.

Tributo de um, por assim dizer, leitor  
Para a maioria das pessoas, a 'Playboy' é só uma revista de mulheres nuas. Têm razão. E ainda bem.
Aliás, a maior qualidade de Hugh Hefner não foi ter convencido tantas mulheres a despirem-se. Foi ter convencido o mundo que a sua revista de mulheres nuas também tinha textos muito bem escritos. Como é evidente, isso é falso. O que sucede é que, ao lado de estupendas moças descascadas, quaisquer letras alinhavadas ao acaso parecem Shakespeare. Querem ver como tenho razão? Experimentem ler esta crónica flanqueada por fotografias de mulheres sem roupa.

Descansa em paz, Hugh Hefner. Uma bonita homenagem seria enterrar-te debaixo de uma sepultura em forma de colchão, em memória do local onde tantos adolescentes esconderam as suas 'Playboy'.
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