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José Diogo Quintela

Povo unido jamais será subvencido

Sem esse meio de subsistência, os políticos podem ver-se forçados a voltar à política.

José Diogo Quintela 23 de Janeiro de 2016 às 00:30
Têm-se vislumbrado incoerências. Todas estupendas, mas há uma que se destaca. Não é a da extrema-esquerda, que jurava que o Tribunal Constitucional era uma vaca sagrada, mas que agora acha que é só uma vaca, na medida em que o que sai de lá cheira mal. Nem a dos deputados do PSD que são a favor de cortes, desde que não a si próprios. Nem sequer a dos deputados do PS, que são contra a protecção dos privilegiados, a não ser quando os privilegiados são políticos.

São bonitas incoerências, mas meras contradições conjunturais. Não ombreiam com a incoerência ontológica entre a forma como os políticos são tão ciosos do seu dinheiro, mas pródigos com o nosso.

Havia sinais. Cavaco Silva, um mãos largas com o erário público, é um judicioso investidor em causa própria, conseguindo óptimas taxas de juro para si. Sócrates, perdulário em Orçamentos do Estado, é forreta com o seu dinheiro, ao ponto de não o gastar e viver à conta de um amigo. E, agora, os Tios Patinhas das subvenções. Se os políticos zelassem pelo nosso dinheiro como zelam pelo deles, Portugal era a Suécia.
Mas não deixa de ser um escândalo, cortar nas subvenções. Sem esse meio de subsistência, os políticos podem ver-se forçados a voltar à política. Afinal, não sabem fazer mais nada. A única competência adquirida em anos de Parlamento é a capacidade de estarem sossegados num anfiteatro, a bater palmas de vez em quando. Só serve para a AR ou para integrar a plateia do programa do Goucha. A mexer nas subvenções, que seja para as aumentar. Não arrisquemos a ter de volta os subvencidos da vida.

Como o RSI, que alguns vêem como um incentivo à preguiça, as subvenções devem ser encaradas como um incentivo à preguiça política. Pagamos para eles estarem quietos em casa. Era um dos nossos direitos adquiridos.

E, em Portugal, os direitos adquiridos são como a SIDA: não têm cura. Daí que tencione apresentar ao TC vários pedidos de fiscalização sobre violações aos meus direitos adquiridos. A saber: i) pretendo que o TC se pronuncie sobre a injustiça cometida pelos meus pais ao deixarem de me dar semanada em 1996. Exijo que seja restabelecida, com retroactivos; ii) o TC também será chamado a reverter a decisão iníqua e arbitrária do restaurante O Bogas, em Alcântara, que mudou o dia do cozido à portuguesa de 5ª para 2ª feira, transtornando-me a agenda, uma vez que na 2ª feira já tenho pilates à hora do almoço e a professora não tem outro dia disponível; iii) por fim, solicito ao TC que intervenha no site de meteorologia Accuweather, que há uma semana garantiu que não chovia amanhã, mas que hoje diz que afinal haverá aguaceiros. Sucede que comprei 7 kg de entremeada para grelhar e não posso cancelar o churrasco. Peço que, ainda hoje, o TC force o site a recuar na previsão.

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Já agora: Homenagem - Sonhos de menino sociólogo
AFrança condecorou Tony Carreira, que desejou recebê-la na embaixada portuguesa, em Paris. Não o deixaram. A propósito disso, Augusto Santos Silva disse: "Nunca consegui cumprir um dos meus sonhos sociológicos que foi assistir a um concerto de Tony Carreira, porque me dizem que é um dos acontecimentos que um sociólogo deve observar". Percebo-o: cumpro, nestes dias, um dos meus sonhos humorísticos, que é assistir à governação da esquerda radical e snob, que me diziam ser um dos acontecimentos que um humorista deve observar. Confere, está a ser divertido.

E mais: O que eu aprecio mais na morte de figuras públicas?
As reacções nas redes sociais. Não as dos fãs, consternados. Essas são normais. Gosto é das reacções de quem não aprecia o defunto, mas sente que deve informar. "David Bowie? Era muito espalhafatoso" ou "Preferia os Beatles". São pessoas que, mesmo não gostando do trabalho do falecido, são magnânimas e prestam a sua desomenagem. É o equivalente a comprar um bilhete para o teatro e, quando o actor entra em cena, levantar-se: "Era só para dizer que não gosto desta peça, de maneira que me vou embora. Com licença".

Só para terminar: Ofertas - Pontapé no rabo dos outros para mim é fruta
Durante anos soube-se que o FCP oferecia fruta, café com leite e rebuçados a árbitros. Ninguém estranhou, apesar de ser uma mistura de alimentos que causa fortes dores de barriga. No ano passado, soube-se que o Benfica oferece jantares faustosos a árbitros. Também não parece haver mal. Agora, o presidente do Sporting fala na hipótese de oferecer um pontapé no rabiosque dum árbitro e há indignação. Atenção, ao contrário dos árbitros obsequiados pelo Porto e Benfica (que encheram o bandulho, metafórica e literalmente), este árbitro não usufrui do chuto. Bruno de Carvalho não chega a presentear de facto. Aflora só a possibilidade. Mas a mera sugestão de oferta é suficiente para causar um escândalo. É bom sinal. Significa que, finalmente, a arbitragem começa a dar-se ao respeito e a reagir a ofertas que não deviam acontecer.
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