Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
7
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

José Diogo Quintela

Reunião Geral de Autoritários

Pode ser a geração mais preparada, mas é também a menos contrariada.

José Diogo Quintela 11 de Março de 2017 às 00:30
A minha filha faz hoje anos. Trata-se do seu primeiro aniversário em que não sinto aquela pontinha de nostalgia por ela estar a crescer e a deixar de ser o meu bebé. Isso deve-se à acção dos universitários da Nova que boicotaram a palestra de Jaime Nogueira Pinto, pois mostraram que, hoje em dia, até aos vinte e tal anos se pode ser mimada. Obrigado, Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas!

Sabemos que os mais novos já são de outra geração quando empregam linguagem que os mais velhos não usam, tipo "bué". Só que esta é a primeira geração que emprega linguagem que os mais velhos não usam, mas que os velhíssimos adoram, tipo "cale-se essa ideia subversiva". São miúdos que falam como idosos reaccionários. O Benjamin Button das gerações.

Pode ser a geração mais preparada, mas é também a menos contrariada. Aliás, estamos a viver um déjà vu geracional. Já tivemos o debate sobre liberdade de expressão com a geração anterior, agora estamos a ter outra vez, mas com a seguinte.

A moda de estudantes universitários proibirem oradores com quem não concordam é uma estreia no nosso país, mas já é muito vista lá fora. Redundantemente, Portugal atrasa-se a receber ideias atrasadas.

Estes estudantes progressistas, se lhes perguntarem quantas identidades de género existem, apontam cerca de 87. Mas se a questão for quantas opiniões sobre o colonialismo é que há, dizem que só pode haver uma. É juventude que pugna pela diversidade, menos de pensamento. Aposto que o grande êxito da tuna desta faculdade é o ‘Efe-erre-á! A! Efe-erre-é! Também A! Efe-erre-i! Ainda A! Efe-erre-ó! Continua a ser A! Efe-erre-u! U! Afinal, não: é A!’

Como cidadão, estou preocupado. A FCSH é uma universidade de elite, que ministra os cursos de Jornalismo, História, Arqueologia, Ciências Musicais, Sociologia, Ciências Políticas e Relações Internacionais. Ou seja, entre aqueles jovens da Associação de Estudantes está a fina flor dos nossos futuros operadores de call centers. Inquieta- -me que, daqui a alguns anos, possa vir a ter esta conversa:

Operador de Call Center – Linha de apoio da Bimby, em que posso ajudar?
Eu – A minha mulher estava a cozinhar e…
Operador – A sua mulher é que cozinha? Sexismo. O sr. é um opressor do heteropatriarcado?
Eu – Acho que não. Ela estava, quero dizer, estávamos a fazer cachupa e…
Operador – O prato típico de Cabo Verde. Isso é racismo na forma de apropriação cultural.
Eu – Pois. A Bimby avariou. E queria saber se ainda está na garantia, pois comprei-a há…
Operador – Comprou? Temos então um capitalista.
Eu – Acho que a sua conversa…
Operador – Acha? Tem uma opinião e vai dá-la? Não foi para isso que tirei o Mestrado em Migrações, Inter-Etnicidades e Transnacionalismo. Há ideias que são se discutem. Adeus.

--------

Holomodor da perdição
Muitos votos de pesar e de condenação dedicam os nossos deputados, chiça. O luto e a indignação são armas políticas, usadas para sublinhar a maldade dos adversários. Desta feita, a contenda ideológica fez- -se a propósito do voto de condenação pela grande fome que os soviéticos impuseram à Ucrânia, em 1932-33. A extrema-esquerda votou contra, certamente por considerar que não foi uma grande fome, foi uma pequena larica, e a culpa não foi dos bolcheviques, foi dos próprios ucranianos, que eram anoréticos. O costume.

Estava preocupado com o facto de a próxima fornada de historiadores, saídos da Universidade Nova, serem revisionistas e parciais, mas está visto que não preciso de me afligir. Os historiadores marxistas que aí vêm não serão piores do que os que já cá estão.

Os animais extremistas são todos iguais
Uma das embirrações da extrema-esquerda com a Ucrânia prende-se com a recente ilegalização do PC ucraniano. Têm razão. Não se devem ilegalizar partidos só por partilharem das ideias da anterior ditadura opressora local. Apesar de essa ser, justamente, a razão para os comunistas mirins da AE da Nova proibirem um simpatizante salazarista de falar.

Parece que a eleição de Trump fez disparar a venda do 1984, de George Orwell. A ver se a bizarria deste voto faz alguma coisa pelas vendas do Triunfo dos Porcos.

Ucranianos comeram tudo, tudo, tudo
O discurso de António Filipe, do PCP, em defesa da actuação da URSS no genocídio ucraniano, impressionou-me. Não costumo fazer isto, mas sinto-me na obrigação de me dirigir directamente a ele. Cá vai:

Sr. Deputado, não tenha medo. É possível que no partido ainda não o tenham avisado, mas eu digo: Estaline morreu. Liberte-se. Não é preciso continuar a defesa negacionista. O pai dos povos não vai aparecer na Soeiro Pereira Gomes e mandá-lo para a Sibéria. Escusa de continuar a ser esse paradoxo andante que é uma pessoa que diz que o Gulag não existiu, mas age com medo de lá ir parar.
Ver comentários