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José Diogo Quintela

Teleutanásia ou morte assistida Hut?

SNS mata amiúde, mas por engano. Temo que, quando for para matar de propósito, acabe a curar sem querer.

José Diogo Quintela 18 de Fevereiro de 2017 às 00:30
Estupenda ideia do BE, a de disponibilizar eutanásia ao domicílio! Pena não inovar ainda mais. É agradável falecer em casa, mas mais agradável é falecer em casa de outra pessoa. Já estou farto da minha, gostava muito mais de me finar numa casa que vi uma vez numa revista, em Sagres. Tem uma vista linda, em cima da praia. O Estado deve forçar o proprietário a ceder-me o sofá da sala para que me possa extinguir, não só com dignidade, mas também com estilo, a ver o pôr-do-sol no mar.

Ainda por cima, a teleutanásia permite poupanças. Com a economia de escala, aproveita-se a presença de médicos para dar consultas a toda a gente lá de casa. Numa tarde, tratam da cárie do pai, vacinam o filho, medicam a enxaqueca da mãe e injectam o narcótico no avô.

O grande problema de se aplicar a eutanásia em Portugal não é a parte da ‘eutanásia’, é a de ‘Portugal’. O obstáculo está a montante da morte propriamente dita. Não é que eu desconfie da capacidade do Serviço Nacional de Saúde para matar. Duvido é que o consiga fazer quando é suposto. O SNS mata amiúde, mas por engano. Temo que, quando for para matar de propósito, acabe a curar sem querer.

A lentidão do SNS não se harmoniza com a urgência de quem deseja morrer já. Se eu quiser que me matem aos 80 anos, tenho de me inscrever hoje na lista de espera. E eu não estou em condições de tomar essa decisão agora. De momento, não tenho nada na agenda para Maio de 2057, mas, e se o Sporting estiver para jogar a final da Liga dos Campeões no momento em que me ligam do Centro de Saúde a dizer que chegou a minha vez?

Ainda por cima, segundo a proposta do BE, é necessária a concordância de três médicos para autorizar a eutanásia. Suspeito da capacidade de se reunirem três especialidades diferentes quando, por exemplo, na Guarda estão há que tempos sem colonoscopias por falta de gastroenterologistas. Bem sei que hemorróidas por tratar não têm o mesmo pathos que uma morte adiada, mas fica o alerta.

Espero ainda ver o projecto melhorado com aqueles detalhes que são a marca do BE. Como a paridade. Obviamente, conto com a estipulação de, pelo menos, 50% de eutanásias para mulheres. E com quotas para ciganos, transgénero e muçulmanos. Que não sejam apenas os homens brancos a beneficiar.

Apesar de tudo, é já uma proposta muito inclusiva, na medida em que autoriza a eutanásia a toda a gente que tenha uma condição fatal. Ora, em princípio, padecemos todos de uma condição que conduz fatalmente à morte, que é o estarmos vivos.

O mérito da discussão pública sobre a eutanásia é que permite identificar os meus parentes que estão a favor. Quando, velhinho, estiver no hospital, vou pedir-lhes que não me visitem. Não deve ser confortável ter, a olhar para mim, familiares que acham que há uma altura em que mais vale deixar-me morrer.

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Já agora: Galamba - Silogismo à Rato
Com a sua argumentação sofista, João Galamba prestou um serviço a todos os maridos. Tantas vezes interpelado pela minha mulher com perguntas bicudas, espero que o silogismo à Rato faça jurisprudência. Eis algumas das minhas futuras respostas:‘Gorda? Estás badocha como o Fernando Mendes. Todavia, é meu entendimento que o Fernando Mendes é magro.’‘O teu primo? É tão aldrabão quanto o Sócrates. Mas, segundo a minha interpretação, o Sócrates é super honesto’.‘Os cozinhados da tua mãe? Sabem a cocó. Contudo, o meu prato favorito é excremento à lagareiro.

E mais: Quintas-feiras, não. E nos outros dias?
Ao contrário do que a maioria dos analistas julga, não considero que o livro de Cavaco Silva seja um ataque a José Sócrates. Pelo contrário, parece-me que é uma ajuda, na medida em que, com o relato das reuniões das quintas-feiras, Sócrates ganha álibis para uma data de ocasiões em que, comprovadamente, não estava a receber fotocópias. Mais do que crítico, Cavaco é uma testemunha abonatória. Juntando as quintas-feiras com os domingos em que estava a fazer exames da Universidade, prova-se que Sócrates não era receptador de envelopes 24/7.  

Só para terminar: Caixa - Perder a virgindade no banco do Estado
Conhecia o conceito de perder a virgindade no banco de trás, mas nunca tinha ouvido falar em perder a virgindade no banco do Estado. Foi o que aconteceu à extrema-esquerda portuguesa: era puríssima, mas, depois disto da Caixa, deixou de ser. São duas formas de desfloramento parecidas, na medida em que ambas requerem alguma flexibilidade de coluna.

Agora que apoiam o Governo, dizem que é um folhetim e que, mesmo que Centeno tenha mentido, o que interessa são os números magníficos que apresentou aos senhores da Europa. Como nos filmes, a extrema-esquerda entregou o seu tesourinho a um rapaz desajeitado, mas meigo, e agora está embeiçada.

Em Roma, a perda de virgindade de uma vestal era sinal de que ia acontecer uma tragédia. Em Portugal, é comédia. Tragam pipocas.
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