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Marcos Perestrello

De Odemira até Lisboa

A miséria provocou fortes abalos no modo de vida da restante comunidade.

Marcos Perestrello 12 de Maio de 2021 às 00:30
A generalidade das pessoas não teria noção da verdadeira extensão do problema, mas ninguém pode dizer que as condições sub-humanas em que vivem muitos dos trabalhadores agrícolas da região de Odemira eram desconhecidas. O caso já tinha sido notícia de televisão pelo menos uma vez.

Sabe-se também que as condições miseráveis de trabalho de milhares de pessoas em setores muito importantes para a nossa economia não estão circunscritas ao sudoeste alentejano - ainda esta semana, ocorreu uma operação policial por causa da qualidade das amêijoas apanhadas na margem sul do rio Tejo, junto à ponte Vasco da Gama, e as autoridades responsáveis estão fartas de saber que também ali há milhares de mariscadores a viver e a trabalhar em condições indignas.

Esta escravatura moderna não é uma originalidade portuguesa nem um exclusivo de migrantes asiáticos. Ocasionalmente, surgem notícias sobre trabalhadores portugueses encontrados em condições laborais e de habitação precárias em países europeus, onde as necessidades de mão de obra intensiva e sazonal para trabalhos pesados e mal pagos favorece a exploração de gente frágil e pobre.

A complacência coletiva perante as miseráveis condições de vida dos trabalhadores imigrados assenta na resignação generalizada com as necessidades da economia, mas só dura enquanto essa realidade se mantiver subterrânea. A indignação coletiva com o caso de Odemira não surgiu por causa das condições de vida desumanas daquelas pessoas, surgiu porque a miséria provocou fortes abalos no modo de vida da restante comunidade ao forçar uma incomodativa cerca sanitária e a deslocação de imigrantes para paredes-meias com casas de férias de gente influente o suficiente para levar de Lisboa a Odemira um indignado Bastonário da Ordem dos Advogados.

A semana
Positivo: Vacinação
Com as vacinas a chegar a bom ritmo, a capacidade de vacinação não falha e já foi possível administrar 100 mil vacinas num só dia. Mesmo os velhos do Restelo já meteram as violas no saco.

Negativo: ANA/VINCI
Aumentar em quase 5% as taxas do aeroporto de Lisboa quando a aviação atravessa uma crise tão grande é absolutamente incompreensível. Mesmo que o aumento resulte do contrato, é exigível uma atenção maior à realidade.  
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