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Padre António Rego

Gato escondido

Números que falam em crescimento da economia podem dar-nos a ilusão de que tudo está bem.

Padre António Rego 17 de Novembro de 2017 às 00:30
Percorrendo as bancas revestidas de jornais e revistas, vendo e ouvindo as notícias que abrem reportagens de rádio e televisão parece que vivemos um tempo pacificado não obstante algumas greves e confrontos de leitura da realidade. É um bom sinal apesar de não inteiramente inocente.

Os números que falam em crescimento da economia, abaixamento do desemprego, maior à-vontade nos gastos dos cidadãos, podem dar-nos a ilusão de que tudo está bem. Não temos de olhar este todo com desgosto ou nostalgia da desordem.

Nem como simples habilidade política de governantes que vai calando os contestatários mais ruidosos e oferecendo a imagem de um país empenhado mais na qualidade do seu dia a dia, fora do enredo político que paralisa a ação.

Uma democracia amadurecida faz-se com a sabedoria do diálogo e a firmeza dos grandes princípios. E aqui nos parece que algo anda escondido para que tudo pareça excelente.

As carências que continuam em tantas famílias, tantos jovens que interrompem ou desaproveitam os estudos, o esquecimento de pobres e marginais que vagueiam timidamente pela noite.

O discurso público pode e deve ter tom apaziguador. Mas é preciso acudir as muitas necessidades que se escondem no isolamento de tantas aldeias, na marginalidade de tantos cidadãos perdidos nas periferias das cidades, de tantas casas sem condições e de tantas mesas que terão alimentos essenciais de sobrevivência, mas a que faltam qualidade e componentes para uma resposta saudável em matéria alimentar.

Dir-se-á que falamos já do patamar dos remediados e dos ricos. Mas importa que esses graus não sejam fantasiados para calar protestos e iludir o país do estado real dos seus cidadãos.

Melhor que ninguém a Igreja conhece estes recantos de carência e miséria. E sabe que não é com a caridade dos restos que se constrói uma sociedade justa, como decorre da exigência do Evangelho e da Declaração dos Direitos do Homem.
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