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Pedro Santana Lopes

Um dia inesquecível

Em representação do Estado português, participei em Macau nas cerimónias do 10 de junho no ano de 1992.

Pedro Santana Lopes 29 de Novembro de 2015 às 00:30
Em representação do Estado português, participei em Macau nas cerimónias do 10 de junho no ano de 1992. Foi após uma visita oficial à República Popular da China, enquanto secretário de Estado da Cultura.

O então Presidente da República, Mário Soares, e o então primeiro-ministro, Cavaco Silva, encarregaram-me dessa honrosa missão.

Asseguro-vos de que é uma sensação absolutamente única, a de estar num território sob administração portuguesa, a tantos milhares de quilómetros do nosso país, e de ver içar a bandeira a ouvir o hino nacional.
De seguida desfilaram as tropas em parada perante o governador de Macau, o general Vasco Rocha Vieira, e eu próprio, para além das outras autoridades civis, militares ou religiosas que estavam também presentes.
Foi uma cerimónia muito bonita, perto da chamada Gruta de Camões, na qual, segundo conta a lenda, o grande poeta terá vivido e escrito parte da obra épica ‘Os Lusíadas’, e onde as crianças das escolas de Macau iam depositar um texto ou uma flor em sua homenagem e por ocasião do Dia de Portugal.

Outras cerimónias se seguiram ao longo do dia, intercaladas por um almoço oficial oferecido na residência do Governo. Houve discursos, mas também um espetáculo cultural, e assim se preencheu o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades naquele território, que estava já a preparar a transição para a soberania chinesa. Como se sabe, essa transição da administração portuguesa para a chinesa decorreu de modo praticamente exemplar, também graças ao excelente trabalho das várias comissões mistas de representantes dos dois países, que foram negociando a passagem. Portugal ficou bem visto na região e isso representa um ativo muito significativo. Hong Kong estava mais avançado e viu o seu processo de transferência para a China ser concluído antes, em 1997.

Macau, para quem o visitava, constituía em certa medida uma desilusão, pois eram muito poucos os sinais da presença portuguesa, quer em património, quer em edificado, quer em termos culturais. Mesmo a língua era muito pouco falada. Foram obviamente importantes para Portugal todos aqueles anos de responsabilidade em Macau, pelo reforço da sua posição no Mundo e pelos laços que permitiu desenvolver entre os portugueses e os povos daquela região. Mas faz impressão que se tenha lá estado tanto tempo e que se veja tão pouco de resultados duradouros.

Quero sublinhar que as sensações fortes e, nomeadamente, a honra sentida naquele dia se deveram também ao facto de o governador ser, naquela ocasião, alguém que sempre admirei. Fez um grande trabalho em Macau, naturalmente não agradando a todos e não evitando algumas polémicas ou conflitos, que sempre podem surgir na atividade humana. Mas acho que Rocha Vieira foi sempre alguém com enorme sentido de Estado e com o devido amor à Pátria. Ficará para sempre gravado na memória o seu gesto de encostar a bandeira nacional ao seu peito, quando a recebeu depois de ter deixado de estar hasteada em Macau, no dia da cerimónia formal da passagem dos poderes para a China.

Não devo terminar este artigo sem referir que mais um laço me liga hoje em dia àquele território, pois um filho meu, advogado, vive e trabalha lá há cerca de dois anos e meio. Apesar de tudo o que ficou dito atrás, Macau ficará para sempre ligado a Portugal e não devemos nunca descurar a importância estratégica, política e económica desses laços.
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