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Pedro Santana Lopes

Com a China, nada é por acaso

É bom que os povos se conheçam uns aos outros para saberem bem com quem lidam.

Pedro Santana Lopes 24 de Maio de 2015 às 00:30

Umas semanas antes, o meu assessor diplomático começou a dizer-me que havia uma possibilidade de o Presidente da China fazer escala em Portugal e de se encontrar comigo. Pouco tempo antes, eu tinha estado, no âmbito da Assembleia Geral da ONU, com o Presidente George W. Bush. E estava para breve o meu encontro com o Presidente da Rússia, Vladimir Putin. Transmitiu-me o referido assessor Nuno Brito que, naturalmente, outros países europeus, nomeadamente a vizinha Espanha, teriam também todo o interesse em receber essa visita, mesmo que breve e ditada por uma escala a caminho de visitas oficiais na América Latina.

Relembro que, em novembro de 2004, ainda não tinha passado cinco anos sobre a transferência de poderes em Macau, entre Portugal e a República Popular da China. Hoje em dia, com tudo o que vai acontecendo no nosso país, no que respeita ao interesse da China e de capitais chineses por vários setores da nossa atividade económica, e conhecendo-se, por outro lado, a proverbial sabedoria e a paciência atribuídas àquele povo, é interessante relembrar os factos. A diplomacia chinesa não faz nada por acaso. Eles sempre trataram o caso de Macau de modo muito particular, nomeadamente quando comparado com Hong Kong e a relação com o Reino Unido.


O encontro decorreu a 10 de novembro de 2004 no Hotel Sheraton do Porto, onde a comitiva chinesa pernoitou. Tivemos uma reunião ao final da tarde e seguiu-se um jantar entre as duas delegações. Lembro-me de nesse mesmo dia ter estado ao telefone com George W. Bush. Portugal estava nessa altura diplomaticamente muito ativo, por força dos acontecimentos do Iraque, mas não só.


Naturalmente, o desenvolvimento da situação em Macau foi abordado, mas também o foram as relações económicas internacionais, sendo bom lembrar que estávamos nas vésperas da entrada em vigor das novas regras do desmantelamento aduaneiro para têxteis e vestuário no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).


Falei muito sobre o que esperava para os próximos anos das relações económicas e políticas entre os dois países. Abordámos também a cooperação cultural, área nas relações entre os dois países que conhecia particularmente bem, até na sequência de uma visita oficial que tinha feito à China, enquanto secretário de Estado da Cultura, em 1991, dois anos após os acontecimentos de Tiananmen. Nessa visita fui acompanhado por uma delegação relevante, que incluía a notável escritora Agustina Bessa-Luís e o então meu chefe de Gabinete, até há anos chefe de Protocolo do Estado, e, hoje, distinto embaixador de Portugal em Haia, José de Bouza Serrano.


Acrescento que logo após essa visita oficial rumei ao território de Macau, onde representei o Estado português nas cerimónias oficiais do 10 de Junho, sendo já governador uma pessoa que muito considero e admiro, o general Vasco Rocha Vieira. Foi um dia inolvidável.


Como já referi, de 1999 para 2000, o território de Macau passou de administração portuguesa para chinesa. Em 2004, o Presidente Hu Jintao escolhe Portugal para fazer esta escala, em 2010 visitou oficialmente Portugal e a partir de 2011 deu-se esta ofensiva económica que todos vamos acompanhando e sentindo. Se relembro aquela visita enquanto secretário de Estado da Cultura é porque neste tempo de acrescida presença chinesa em Portugal é bom não esquecer a dimensão cultural nas relações entre os Estados. Não basta os cartazes em mandarim nas lojas e nas agências imobiliárias e nos prospetos de quem trata do investimento chinês. É bom que os povos se conheçam uns aos outros para saberem bem com quem lidam, na sua história, nas suas características e nos seus projetos.

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