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Pedro Santana Lopes

Memórias de um líder iraquiano

Conheci Ayad Allawi em Nova Iorque na Assembleia Geral das Nações Unidas.

Pedro Santana Lopes 6 de Dezembro de 2015 às 00:30

Conheci o primeiro-ministro iraquiano, Ayad Allawi, em Nova Iorque na Assembleia Geral das Nações Unidas. Nesse período em concreto – estávamos em setembro de 2004 – havia alguns sinais de esperança numa possibilidade de normalização no processo de reconstrução e reorganização do Iraque. Esse primeiro-ministro de um Governo de transição foi aceite com mais ou menos tolerância pelas várias partes envolvidas naquele processo.


Falava aos seus homólogos com uma mensagem de paz e sublinhando sempre a esperança que tinha no futuro do seu país. Dizia-nos a todos que estava a trabalhar para a paz e pedia ajuda. Recorde-se que a invasão do Iraque tinha começado cerca de um ano antes e, como é sabido, todo esse processo de derrube de Saddam Hussein e dos seus colaboradores foi uma fase muito intensa de captura de ministros ou dirigentes políticos do regime deposto, dia após dia, semana após semana.

A comunidade internacional queria acreditar que, ajudando, apoiando económica e politicamente o Iraque, seria possível instalar a paz com governantes democraticamente eleitos. Encontrei meses mais tarde esse simpático e voluntarioso primeiro-ministro em Bruxelas, durante uma reunião do Conselho Europeu. Continuava firme e determinada na sua saga de reunir apoios para o processo de regeneração nacional que tentava liderar. Digo que tentava liderar porque naquela altura, como hoje, as divisões entre grupos rivais, nomeadamente xiitas, sunitas e curdos, iam causando violentos contratempos e muitas perdas de vidas.

Durante um tempo, depois de terem decidido intervir no Iraque, as forças dos países da coligação pareciam ter um controlo maior da situação e conseguiam assegurar a paz nas principais cidades do país, nomeadamente, no interior do perímetro da cidade de Bagdad.


Sabe-se como tudo evoluiu e como o passar dos anos levou a que países onde o Ocidente agiu para depor regimes ditatoriais acabaram por ver o Estado a desagregar-se e a violência a proliferar ainda mais. Para além do caso do Iraque, refira-se o que sucedeu na Líbia, em que depois da queda de Khadafi a estrutura do Estado se foi desagregando, existindo atualmente três governos e três capitais. Sabe-se o que se passa também na Síria e percebe-se como o Ocidente tem de refletir sobre as opções que faz no seu relacionamento com outras regiões do mundo, nomeadamente o Médio Oriente.

Síria, Irão, o que sobra do Iraque, Arábia Saudita, Israel, Palestina, Líbano, para não falar da Jordânia e do Egito, é um conjunto muitíssimo explosivo. Passado um tempo, o então primeiro-ministro do Iraque, Ayad Allawi, foi substituído na chefia do Governo e mais tarde, no ano passado, veio a ser designado vice-presidente. É sem dúvida um lutador, um resistente, ao fim e ao cabo, uma pessoa que ama a sua pátria e dá tudo pelo seu futuro.


Faz muita impressão ver o contraste entre as boas intenções e a esperança que me transmitia Ayad Allawi e aquela que veio a ser a evolução das suas terras e das suas gentes. E o que mais lhe custará deverá ser a ideia de que muito dificilmente, mesmo tendo uma significativa longevidade, verá a paz e a estabilidade política no Iraque. É um autêntico ato de heroísmo ser político, ser governante, ser estadista em países como aquele que viu nascer aquele homem tão bem intencionado que suplicava por ajuda numa sala do Palácio de Vidro em Nova Iorque.
crónica pedro santana lopes figuras que marcam
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