Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
9
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Pedro Santana Lopes

Uma obra fantástica

Portugal e Moçambique têm uma relação quase de irmãos distantes.

Pedro Santana Lopes 30 de Agosto de 2015 às 00:30

Esta Cimeira em Moçambique em outubro de 2004 foi muito importante para desbloquear o contrato de Cahora Bassa.


O governo seguinte ufanou-se de ter desbloqueado o processo e na verdade o acordo de transferência da parte portuguesa de Cahora Bassa para Moçambique foi assinado em 2007. Mas sabe quem participou no processo o quão significativo foi o avanço, resultante das decisões tomadas nessa reunião entre Joaquim Chissano e eu próprio.



Portugal e Moçambique têm uma relação quase de irmãos distantes: sabem que são família, gostam um do outro, mas mantêm sempre uma certa distância. Conhecia muitas histórias de Cahora Bassa e até de antes do 25 de Abril, contadas pelo meu ex-sogro e avô de dois filhos meus, o general Kaulza de Arriaga. Independentemente das diferenças ideológicas, e até das posições extremadas, as grandes personalidades políticas ou os grandes militares têm lá sempre uma dose de consideração e respeito pelo adversário ou pelo inimigo, consoante os casos.


A construção da barragem hidroelétrica de Cahora Bassa foi sem dúvida uma das obras mais importantes feitas em África no tempo da colonização. Principalmente por causa das responsabilidades financeiras que acarretava, Portugal manteve durante décadas uma posição na sociedade proprietária e gestora da barragem. Nessa sociedade quem representava Portugal, como um dos administradores à época, era o Dr. Fernando Marques da Costa, pessoa que prezo e considero. Já estava nomeado quando tomei posse, e não considerei que devesse ser substituído. O Dr. Fernando Marques da Costa, era também, militante socialista e era nessa altura assessor do, então, Presidente da República Dr. Jorge Sampaio.


Passar essa participação portuguesa para mãos moçambicanas passou a ser uma reivindicação cada vez mais forte das entidades daquele país. Não era fácil, mas conseguiu-se. Graças, naturalmente, ao esforço de muitos: vários governos e vários diplomatas dos dois países.

 

A verdade é que a força imponente daquela unidade geradora de energia para uma parcela tão significativa do território, da população e de economia de Moçambique, lá continua a prestar o seu serviço público. Os governos passam, e as obras, quando são úteis, são abraçadas por qualquer regime.


Com Joaquim Chissano, homem de Estado, e amigo de Portugal, foi possível avançar para a solução final nessa importante reunião que teve lugar no Palácio das Necessidades, em Lisboa.


A propósito desta visita oficial do Presidente Chissano forjou-se uma das várias invenções que nessa época circularam sobre mim. Ficou acertado no programa da visita do presidente Chissano que o Presidente da República ofereceria um jantar e eu ofereceria um almoço ao ilustre visitante. Na audiência semanal que antecedeu essa visita ficou acertado entre o Presidente Jorge Sampaio e eu próprio que seria o Ministro de Estado Álvaro Barreto a estar presente nesse jantar, porque eu tinha nesse dia o meu primeiro debate quinzenal com o novo líder da oposição, José Sócrates.

Como não se sabia a que horas acabaria esse debate e como as presenças nesses jantares não são combinadas à última hora, assim ficou acertado. Passados dias circulava a história de que eu tinha faltado ao jantar de Joaquim Chissano. O que interessa é que Portugal e Moçambique ganharam: resolveu--se a questão da dívida de Moçambique e da propriedade plena do jovem estado sobre a barragem.
 
Ver comentários