Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
7
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Rui Moreira

Os linchadores

Há muita gente que adora a proteção do anonimato para se deliciar com os seus atos de baixaria. Os cobardes são de sempre.

Rui Moreira 26 de Julho de 2015 às 00:30
(Veja a Nota da Redação no final do texto)

Os jornais decidiram abrir aos comentários dos leitores as notícias publicadas nas suas versões digitais. O processo de registo daquele que quer comentar, quando é exigido, é normalmente muito fácil e o anonimato é, por norma, aceite. E, nos casos em que é recusado, basta ao "interessado" construir, através de conta de e-mail ou Facebook, uma identidade que não é verificada.

O comentário também não é escrutinado, ainda que alguns jornais aceitem que possa ser denunciado por outros leitores, ou reclamem que há moderação. Um princípio que faria sentido, uma vez que é o jornal que disponibiliza, e por isso amplifica, o comentário. Mas que não é, de facto, aplicado. Ou, se o é, é aplicado de forma negligente e descuidada. De facto, quem se der ao trabalho de ler as caixas de comentários, encontra lá a pior das porcarias: insultos, mentiras, difamações, referências racistas, apelo à violência. As poucas discussões entre comentaristas são, por norma, alarves.

Há, por certo, muita gente que adora a proteção do anonimato para se deliciar com os seus atos de baixaria. Os cobardes são de sempre, não foram inventados com o advento do digital. O que não se compreende é que a comunicação social forneça o palco aos linchadores. Há dias, um pasquim retirava do Facebook o seguinte comentário, a propósito do Acordo do Porto: "o Mentiroso [ou seja, o Primeiro-Ministro] é um menino à beira do Rui Moreira". Não me incomodando o insulto de um qualquer velhaco, faço não obstante várias perguntas. Qual é o papel da direção do jornal? Qual foi o critério de seleção que levou à escolha e promoção desse comentário? Verificaram a identidade do autor? Reveem-se nessa avaliação? Se se reveem, tenho o direito de doravante os tratar como velhacos? A falta de ética e de educação vai, assim, de mão dada com a irresponsabilidade de quem assobia para o lado, ou aproveita o palco de que dispõe para fazer jogatana politiqueira. Depois, queixem-se da crise dos média e dos valores...


Fórmula 1 no Douro
O próximo fim de semana é mesmo alternativo. Pela primeira vez, o Campeonato do Mundo da Fórmula 1 em motonáutica vai invadir o Douro entre o Porto e Gaia, num espetáculo que será transmitido para, pelo menos, 35 países, entre os quais, Portugal, através da RTP e em canal aberto. Sim, a comparação com as corridas de automóveis é injusta. Mas a ideia não é comparar nada, mas sim dar ao Porto um evento inédito, sustentável e capaz de promover a cidade. Divirtam-se.

"Mas o que é isto afinal?"
Há semanas que, no Facebook, iniciei a publicação de rostos de portuenses, quase todos anónimos e nem todos nascidos no Porto. A rubrica chama-se "A pele do Porto" e concretiza-se graças a um fotógrafo que dispara, com consentimento, sobre as sombras que denunciam a garra, idade, sofrimento ou a alegria de ser portuense. Há dias, numa dessas fotos, onde apenas coloco o nome e profissão de cada um, alguém perguntou: "mas o que é isto afinal?". Respondi-lhe: "É preciso explicar?".

---------

Nota da Redação: O Correio da Manhã não se revê no cenário descrito no texto de Rui Moreira, no que toca aos comentários dos leitores. Temos uma política de moderação efetiva de comentários onde nada é publicado ser lido por um jornalista. Da mesma forma, o anonimato pode ser uma opção do leitor na publicação, mas não no registo do site. É um trabalho que exige um esforço de meios, mas que nos permite publicar apenas contributos que não violem as regras básicas de liberdade de expressão numa sociedade democrática e civilizada, bem como garantir que até nos comentários dos leitores temos o cuidado que não seja violado o Estatuto Editorial do jornal.

Ver comentários