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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Rui Moreira

Temos dois países

O que disse Marcelo, além de ter brincado com o otimismo do primeiro- -ministro? Que via dois países.

Rui Moreira 22 de Maio de 2016 às 00:30
Na sua última visita ao Porto, e por ocasião da sua visita inaugural, na companhia do Primeiro-Ministro, ao i3S – um instituto de excelência que merece todos os elogios, apoios e incentivos – o Presidente da República fez um excelente discurso, que deveria merecer uma reflexão profunda.

O que disse Marcelo, além de ter brincado com o otimismo do Primeiro-Ministro? Que via dois países, "o que prolonga um tropismo pessimista e cético, que considera que estamos votados a uma subalternização. E há outro [país] que todos os dias trabalha, cria, inventa, imagina". Há, de facto, estes dois países. O problema é que o primeiro deles se sobrepõe quase sempre ao segundo. É para o primeiro país que são feitas as leis em catadupa, é para o primeiro país que são desenvolvidas as políticas garantistas, é este primeiro país que domina as notícias nos "media", é este primeiro país que não permite que o mérito seja reconhecido, quanto mais premiado.

É, enfim, neste primeiro país que se concentra a maledicência e a inveja, características cada vez mais prevalentes da nossa sociedade. Evidentemente, é este primeiro país que deixa passar em claro aquilo que o Presidente disse, porque não lhe agrada ser destapado, porque se sente denunciado.

Por isso, nos dias seguintes, falou-se da brincadeira, que constituía, aliás, um elogio, e não se falou da parte mais séria deste notabilíssimo discurso de Marcelo Rebelo de Sousa. O segundo país, tantas vezes esquecido, negligenciado e silenciado, deve agarrar todas as oportunidades que tem para se impor. O facto de haver um Presidente da República que lhe reconhece mérito, que confessa candidamente que muitas vezes viveu rodeado do primeiro país, obriga o segundo país a não perder esta oportunidade. Passaram mais de quatro décadas de vivência em democracia.

Quatro décadas em que poderíamos ter atingido outros patamares de desenvolvimento, se não se desse o caso de se ter, quase sempre, privilegiado o primeiro país. É chegada a altura de o segundo país exigir um tratamento equitativo. Se o segundo país conseguir marcar a agenda das políticas, tudo será melhor. Haverá um benefício comum. Para todos. Até para os do primeiro país. E, um dia, daqui a algumas décadas, poderemos ter apenas um único e melhor país.

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Os discursos de um leque
Um Objeto e Seus Discursos por Semana’ é um dos programas estruturantes do pelouro da Cultura da Câmara do Porto. Esta revisitação semanal do património material e imaterial da cidade tem-nos levado a conversas de fim de tarde, todos os sábados, às 18 horas. A próxima sessão terá como objeto um leque. Apreciado como acessório de moda, foi visto como símbolo de elegância, luxo e distinção. No século XIX, o seu poder de sedução foi descrito na chamada "linguagem do leque", um complexo sistema de posições e gesticulações que possibilitavam a passagem de mensagens entre elementos da corte. Uma especialista da área da sexologia, Gabriela Moita, e outra da moda, Catty Xiomara, discutem a sua utilidade e semiótica na história do Ocidente e do Oriente, no Museu Romântico do Porto.

O Rally que nos encheu as medidas
APorto Street Stage, que sexta-feira levou à baixa da cidade o Rally de Portugal, foi um dos acontecimentos desportivos mais interessantes de sempre no Porto. Com público responsável e apreciador, com uma organização por parte do ACP e FIA exemplares e com um trabalho irrepreensível de empresas municipais, provou-se que competição automóvel e cidade não são incompatíveis. E que também não é necessário que os moradores sejam incomodados mais do que 24 horas para se encaixar na cidade uma competição desta natureza. Se, no meu Facebook, antes da prova foi questionada a segurança e utilidade do evento, após a sua realização as vozes (e foram milhares) foram já quase unânimes no aplauso.
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