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Rui Pereira

O sexo dos cães

Um sinal que sugere a comparação entre mulheres e cães não tem graça nenhuma num país com violência doméstica.

Rui Pereira 23 de Outubro de 2014 às 00:30

No coração de Lisboa, na rua do Alecrim, uma barbearia alcançou merecida projeção mediática graças a um sinal que proclama, "urbi et orbi", que é permitida a entrada a homens e a cães, mas não a mulheres.

Nas palavras do fundador desta "barbearia gourmet", "os homens (…) gostam de estar à vontade e de ter uma privacidade masculina enquanto recebem (…) serviços". Tudo se torna claro: os homens não são perturbados pelos seus fiéis amigos, beneficiários recentes de merecida tutela penal (foram criminalizados os maus-tratos e o abandono de animais de companhia). Porém, as mulheres devem guardar as devidas distâncias em relação a eles.

Se calhar, a violação dessas distâncias é a responsável pelo número crescente de "femicídios" (vinte e seis, este ano), praticados no âmbito da violência doméstica. Por isso, as precauções da barbearia são avisadas, embora incompletas. A fazer fé nas notícias, não consta do sinal a proibição de entrada de cadelas, que seria da mais elementar prudência – a presença das fêmeas pode deixar os cães pouco à vontade e afastá-los do são convívio com os "donos".

Falemos a sério: é admissível um sinal como o que esta barbearia ostenta? Na nossa Constituição, as normas sobre direitos, liberdades e garantias são de aplicação imediata e impõem-se a entidades públicas e privadas. Não valem só para o Estado, têm uma eficácia externa ou relativa a terceiros. Um restaurante não pode proibir a entrada a pessoas de etnia cigana, invocando a autonomia privada. É claro que há associações que consagram discriminações sem violar a igualdade.

Uma associação de transmontanos pode reservar a qualidade de sócio aos naturais da região. A Igreja Católica não admite (por enquanto...) o sacerdócio de mulheres. Muitas obediências maçónicas não aceitam a junção de pessoas de ambos os sexos. Porém, tais discriminações só são toleráveis se não pressupuserem uma relação de domínio nem visarem a segregação de um conjunto de pessoas. Não creio que as mulheres aspirem a frequentar bar-bearias, mas este caso destila misoginia. Num país que se debate com um grave problema de violência doméstica, um sinal que sugere a comparação entre mulheres e cães não tem graça nenhuma. 

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