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Rui Pereira

Trumputin

Psicanálise explica que Trump e Putin disseram um do outro o que pensam de si próprios.

Rui Pereira 25 de Junho de 2016 às 00:30
Quem disse que Donald Trump é um homem "brilhante", "incrível" e "talentoso"? Foi Vladimir Putin, que recebeu como elogio sinalagmático do candidato republicano a presidente dos EUA o reconhecimento de que é "um líder forte e poderoso que representa o seu país". Qualquer psicanalista poderá explicar que cada um dos políticos disse do outro o que pensa de si próprio.

Trump imagina-se como o único dirigente forte e poderoso que poderá representar capazmente os EUA, sucedendo a um Presidente ‘frouxo’, quiçá nascido na África Oriental, que só por mero acaso não é um sem-abrigo. Putin, formado com distinção na escola do KGB, considera-se, sem dúvida, um predestinado cujas qualidades deverão devolver à Rússia a força perdida.

"Les beaux esprits se rencontrent": o aforismo francês, de difícil tradução ("os belos espíritos encontram-se"?), remonta ao século XIX, terá origem numa carta de Voltaire e autoriza todas as ironias. Pelos vistos, os espíritos superiores de Trump e Putin coincidem. Tudo somado, podemos aspirar a ter dirigentes fortes, poderosos, brilhantes, incríveis e talentosos.

Resumindo, estaremos a gerar uma nova estirpe de estadistas. Os dirigentes políticos timoratos e respeitadores do Estado de Direito serão substituídos por líderes carismáticos e decididos a tudo, incluindo construir muros para manter os imigrantes à distância, distribuir armas à discrição pelos interessados e atacar sem qualquer escrúpulo os seus adversários políticos.

Mas há uma leitura mais sofisticada e maquiavélica das declarações de Putin. Pretenderá o presidente da Rússia dar o seu contributo para a eleição de um candidato à presidência dos EUA que desconsidera (até pela excentricidade e involuntárias qualidades histriónicas), por entender que a pior solução para o adversário é a que melhor pode servir os seus interesses?
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