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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Rui Zink

Má vizinhança

Esta semana, demos com agricultores espanhóis a exigirem que a ‘sua água’ não venha para Portugal.

Rui Zink 23 de Setembro de 2022 às 00:30
Esta semana, uma equipa de cientistas tentou contar quantas formigas há no mundo. Dizem que o número é ‘inimaginável’, mas lá tentaram chegar a um resultado: 20 quadriliões. Mais ou menos, dois milhões e meio de formigas para cada humano. Com a minha cabeça um bocado torcida, pensei logo no dinheiro que faria se criasse um bordel para formigas. Ou, melhor ainda, uma droga em que elas ficassem viciadas. Isso é que era.

O negócio mais lucrativo sempre foi o da necessidade. Se controlarmos algo de que todo o mundo precisa, temos uma renda vitalícia. O do vício é bom, até que um agente mais zeloso da PJ nos estrague o arranjinho. O melhor, então, será arranjar algo legal, mas de que todos dependamos. A água, por exemplo.

Voltando às formigas nossas vizinhas, hoje apareceram-me umas na cozinha e, com muita pena minha, matei-as. Fico sempre um pouco triste quando mato formigas ou melgas. Já me ocorreu, mais de uma vez, que podem ser anjos a tentar dizer-nos algo. E nós, zás, surdos, não vendo que (embora chatas) são criaturas de Deus, eliminamo-las antes que nos passem a mensagem. Suponho que seria algo como "Não matarás" ou "Respeita o próximo". Mas e se for a terminação do Euromilhões? E se, todas as semanas, quando damos com o mata-moscas numa melga, estivermos a perder a chave da felicidade e da fortuna? Só de pensar nisso fico deprimido. Dava-me jeito uma casa com piscina. Sei que qualquer dia vamos todos ter uma, graças às alterações climáticas, pelo menos quem habite perto do mar. Mas ter a casa inundada também é uma seca.

Há anos, um gestor da Nestlé ficou célebre quando, cara podre, disse que a água não era um direito essencial, apenas um produto privatizável. Pelo que sei, a Nestlé continua nessa. Por cá, a água já é uma das grandes fontes de rendimento. Em França, trazem grátis para a mesa água da torneira. Aqui, como somos todos ricos, não.

Esta semana, além do número de formigas no planeta, demos com agricultores espanhóis a exigirem que a ‘sua água’ não venha para Portugal. Caso um dia haja nova guerra com Espanha, não será pelo lítio nem pelos caramelos, será pela água. Lá como cá, as novas culturas rentáveis são sorvedouros. E os humanos, piores do que formigas, não aprendem. Nem, por vício, escutam.

O maior show o mundo
As honras fúnebres da rainha de Inglaterra duraram dez dias e, só por cá, foram três de luto nacional. Morrer na Escócia foi uma grande jogada: faz a vida mais difícil aos independentistas. O problema é que Carlos III já começou a mostrar ser bem capaz de lhes facilitar a vida…

Há muita competição
Angelina Jolie visitou o Paquistão, que ainda está a recuperar das cheias assassinas. Calcula-se que um terço da população esteja a passar fome e, com a insalubridade, sujeita às doenças que nestas situações advêm. Gesto louvável, mas condenado ao fracasso. O mundo anda desatento.

Um Ciro no pé
No Brasil, a campanha aquece. Ciro Gomes tenta ser o penetra numa eleição que seria renhida, mesmo que a diferença fosse de milhões de votos, dado que quem está no poder só gosta da lei quando lhe faz o favor de ser bem-comportada. Mas o que deu a Ciro para atacar Caetano Veloso.

História de vida: O inverno nuclear
Ainda sou do tempo dos autocolantes de origem alemã a dizer "Nuclear? Não, obrigado". A energia nuclear estava demonizada, para desgosto do ex-ministro Mira Amaral, hoje o mais notável lobista deste tipo de energia, além de crítico acérrimo da eólica, que, com os seus moinhos montes acima, ainda estamos para saber se dará mesmo bons ventos. Dizem que hoje em dia a energia nuclear é mais ‘limpa & segura’, além de económica. O problema é que ainda está viva a memória do acidente de Fukushima, em 2011. De uma só penada, aquilo que estava prometido como seguro, afinal não o foi tanto. Permitiu aos portugueses no Japão brilharem, pois ficaram por lá, ao contrário dos engenheiros franceses e alemães, que jogaram pelo seguro e apanharam o avião mal puderam. E temos agora, em Zaporíjia, um caldinho.

Um gesto nobre: O inferno nuclear
A primeira-ministra estoniana disse que Putin foi o primeiro a fazer uma ameaça nuclear. Não foi, mas o que interessam os factos nestes tempos de bela retórica? Ainda há meses, Liz Truss, então ministra inglesa dos Negócios Estrangeiros, disse, sem pestanejar, que usaria as armas nucleares em caso de necessidade. E, para demonstrar firmeza, repetiu-o. A ameaça nuclear esteve sempre na mesa desde que duas bombas arrasaram, a um Estado guerreiro, duas cidades pacíficas. Simplesmente, desde a crise dos mísseis em Cuba (por alguma razão, as superpotências não gostam de mísseis no que consideram "o seu quintal") que não era tão palpável. Anda um odor a insensatez no ar. A euforia do ‘nosso lado’ parece ter alguma justificação. Putin começa a cambalear. Esperemos é que não caia em cima do botão.
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