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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Rui Zink

Reconhecer o corpo

Portugal é pródigo em banqueiros e artistas do crédito candidatos ao pódio de ‘Melhor Aldrabão Nacional’.

Rui Zink 20 de Maio de 2022 às 00:30
A viso desde já, a crónica de hoje é mórbida. E ainda mais mal-intencionada que de costume. Também não sei como poderia ser de outra maneira, tratando-se de Rendeiro.

Para quem acaba de chegar ao planeta (ou só ontem aprendeu a ler), Rendeiro é o nosso maior escroque. Ou não, não o nosso maior escroque, aí tem concorrência. Portugal é pródigo em banqueiros e artistas do crédito candidatos ao pódio de ‘Melhor Aldrabão Nacional’, ou mesmo de ‘Melhor Destruidor Europeu de Poupanças Alheias’.

Rendeiro é, tão-só, o mais famoso fugitivo português dos últimos tempos. E agora terá morrido numa prisão da África do Sul, no que aparenta ser um suicídio com um lençol. Por que motivo digo ‘terá morrido’ e não ‘morreu’? Já lá vamos.

É humano termos sempre pena de quem morre. É mesmo um dever. Nessa hora fatídica, até o pior dos facínoras merece a nossa empatia. É aliás nisso que assenta a maior religião em Portugal: não há rapazes maus, perante o Senhor do Universo. No regresso ao pó, todos somos redimidos dos nossos pecados, mesmo que estes incluam torturar, matar, ou deixar pessoas depenadas.

Rendeiro não quis voltar a Portugal. Aliás, fez tudo para não voltar. Fugiu. Como acontece com os bons sociopatas, gostou da Justiça enquanto ela lhe foi fazendo as vontades. Andou em adiamentos e recursos por mais de uma década. Vantagem de poder pagar a ricos advogados. Quando por fim os recursos se esgotaram, e ficou claro que teria mesmo de cumprir pena, o homenzinho deixou de gostar da Justiça portuguesa. Acontece muito.

Na África do Sul, continuou a debater-se. Acreditou que, se conseguisse atrasar o recambiamento, e encontrasse um juiz corrompível que o deixasse aguardar o veredicto em liberdade, arranjaria de novo maneira para, graças ao generoso financiamento dos que espoliou, continuar a saltitar em liberdade. Da África do Sul iria talvez à Costa Rica. Afinal, para quem tem dinheiro, o mundo é um cartão Gold.

Agora dizem que ‘morreu’. E que o corpo já foi ‘reconhecido’, pela advogada e um diplomata. Mas quão bem o conheceriam essas pessoas? Mais do que a autópsia para ver as causas da morte, espero que façam o óbvio: confirmar, verificando os dentes e etc. (não sou ignaro, vi muito CSI) e confirmem, cientificamente, a identidade. n

Não é só na América

Não são poucos os casos de guardas seduzidos ajudando presos a fugir. Há poucas semanas foi a guarda Toby Young, do Alabama. Ora todos os relatos indicam que Rendeiro era capaz de persuadir um tigre a virar vegano. É só juntar dois mais dois. E, reconheço, ter uma mente retorcida… 

Cuidado com as imitações

Agora dizem que vão cremar o corpo. Ou seja, queimar as provas. É a garantia do início de uma lenda urbana, a lembrar as da Maddie, Elvis, Hitler. Estas coisas não se deixam para depois. Um careca, ar respondão, de óculos e máscara? Olho-me ao espelho e vejo um sósia de Rendeiro. 

O erro de Heningway

Fui a França, onde, como todo o português que se preza, tenho um filho a trabalhar. E, mesmo numa cidade pequena, fico espantado com a riqueza luxuriante dos quiosques, cheios de revistas e jornais, a animação na rua, o conforto das esplanadas. O país, não só Paris, é uma festa. 

Monte Cristo

A depressão ataca a todos e é perigosa. Jovens suicidam-se. Gente orgulhosa também. Mas sociopatas? Os sociopatas amam-se. Tal como é legítimo questionar o caso de Jeffrey Epstein (até porque poderia divertir-se a denunciar nomes em tribunal e, até, ir para uma prisão decente, só para criminosos de colarinho branco), também não é ilegítimo questionar o caso de Rendeiro. Até porque o pior não é uma pessoa não aceder ao dinheiro escondido em paraísos fiscais, pois algum dia se encontra um meio. O pior é não ter (nem nunca ter tido) dinheiro para mandar cantar um invisual. Pelas notícias, Rendeiro seria já uma espécie de ‘pai’ dos outros presos. Ou, se não pai, padrinho. Para quê, então, pôr termo à própria vida? Penso no Conde de Montecristo. Para sair da prisão, fingiu-se de morto.

Profissão ou Fé?


Em política, por exemplo, fazer-se de morto é toda uma arte. Se virmos a política como uma atividade nobre e até certo ponto desinteressada, sermos vencidos não chateia muito. Bernie Sanders, o esquerdista da administração Biden (tecnicamente não está lá, mas está, claro que está), é um eterno e feliz vencido. E, ao que parece, ser vencido ajuda a manter a juventude. Aos 80 anos, Bernie está para as curvas. Defendendo os fracos, mesmo que ganhe, perde sempre. Do mesmo modo, mesmo perdendo, os fortes ganham sempre. A sindicalista que ganhou em tribunal contra os patrões por assédio laboral continuará a ser pobre; os que a maltrataram continuarão a ser ricos. Já se virmos a política como uma carreira, gerir as entradas e saídas de cena é fulcral. O bom político sabe quando tirar uma sabática.
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