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Tiago Rebelo

Uma fantasia do passado

Ela faz amor com uma determinação avassaladora, uma vontade dominadora de concretizar as fantasias que imaginou.

Tiago Rebelo 8 de Março de 2015 às 00:30

Encontram-se fortuitamente num restaurante onde se reúne um grupo de amigos comuns. Ela está de regresso à cidade após quase dezoito anos a viver fora; ele sempre viveu cá, mas é o fim do seu casamento que o traz de volta ao convívio com os amigos.

Juntam-se assim, vinte anos depois de terem sido namorados. Foi uma paixão de jovens que se dissolveu por algum motivo fútil que já nenhum dos dois recorda. Ele esteve casado quase duas décadas, até aceitar que o amor se extinguira; ela foi para uma cidade estranha, atrás de um emprego bom que ofereceram ao marido e lá ficou o que agora lhe parece uma vida inteira.

Jantam lado a lado, rodeados de amigos mas concentrados um no outro. Ela conta-lhe que teve um casamento péssimo e foi infelicíssima, mas que aguentou demasiado tempo por causa dos filhos, por falta de coragem, enfim, encolhe os ombros… Mas não lhe conta que, durante esses anos, se lembrou muito dele e lamentou muitas vezes tê-lo deixado. Sempre pensou que era com ele que deveria ter casado, sempre teve fantasias com ele. E agora, sem o esperar, ali estão os dois novamente, como se o destino lhes queira dar uma segunda oportunidade.

No final da noite, ele sugere encontrarem-se no dia seguinte num hotel para tomarem um café depois de almoço. Ela aceita. Enquanto conversam no bar do hotel, ela sente que, pela primeira vez na vida, está disponível para se entregar a um homem sem condições. O seu corpo, a sua expressão, a sua voz, dizem tudo: estou aqui, desejo-te, sou tua. E quando ele diz vamos para um quarto, levanta-se e segue-o, simplesmente.

Assim que fecham a porta do quarto, abraçam-se, beijam-se e caem na cama. Ela faz amor com uma determinação avassaladora, uma vontade dominadora de concretizar as fantasias que imaginou durante tanto tempo. Apesar de surpreendido, ele deixa-se ir sem a contrariar.

Separam-se ao fim da tarde, já a noite cai. Ele garante que lhe telefonará em breve, mas sabe que não vai cumprir a promessa, pois, se antes a quis, agora só sente um imenso vazio e percebe que não foi a antiga paixão que o impeliu para os seus braços mas a necessidade de vingar o passado, por tê-la perdido quando a amava realmente, em jovem. Porém, nada resta desse amor e já não a quer de volta.

Ela espera ansiosamente pelo seu telefonema, em vão, mas depois, lentamente, vai aceitando que o seu sonho se desfez no esquecimento de um tempo demasiado longo. Ela ama-o, mas, para ele, não passa de uma recordação da juventude. E não é possível inverter o passado.

crónica de Tiago Rebelo conto história de amor
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