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Victor Bandarra

Palavras traiçoeiras

“Aristides responde no seu crioulo mais pomposo: ‘Cá tem!’”

Victor Bandarra 24 de Julho de 2016 às 00:30
Aristides é um rapaz alto, bem apessoado, olhos pestanudos e voz suave. É cabo-verdiano com jeito para línguas e com trato especial para turistas em busca de experiências exóticas. É barman num hotel de uma das ilhas crioulas.

Ao fim da tarde, ressequidas do calor dos trópicos, as turistas do Norte, sobretudo italianas, poisam que nem moscas nos bancos altos, mirando e remirando os bíceps de Aristides. Muitas são reincidentes nas férias, executivas entradotas, com cadastro invejável nas artes da sedução, já dominadoras de meia dúzia de expressões em crioulo de Cabo Verde. "Tud d’ret?", perguntam elas, dengosas, como quem diz "está tudo bem?" E Aristides sorri, concedendo o eterno "parabéns" ao sotaque das senhoras. E há também os senhores – italianos, franceses e portugueses. Mais discretos do que elas, sentam-se no canto do bar, aproveitando o pedido de um grogue para se insinuarem junto de Aristides como aprendizes entusiastas da língua local.

São muito traiçoeiras certas palavras e expressões da Língua Portuguesa e dos respectivos crioulos espalhados pelo mundo. Há exemplos para todos os gostos e muitas teses. De chofre, o português menos avisado que chega ao Brasil fica a cismar quando, à pergunta "pode servir-me uma cachaça?", o barman lhe responde "pois não!" No Brasil, como há quem saiba, "pois não" significa "sim, com certeza!" E se o Português influenciou os crioulos, muitas palavras das línguas das regiões por onde andaram os portugueses acabaram por se insinuar na Língua-Mãe. Poucos imaginam que, por exemplo, "jangada" vem do malaio, "chá" do chinês e "quezília" é originária da palavra kimbundo "kijila".

No bar do hotel, Aristides desenrasca-se em português, espanhol, italiano e até em francês. E é com um perfeito "oui monsieur" que responde ao homenzarrão barrigudo, aloirado e avermelhado, que lhe atira um sorriso e uma frase em crioulo: "Sta tcheu bentu oxi!" (hoje está muito vento!). O homem aproveita a deixa para confessar que, apesar do aspecto, é bem português. "E adoooro Cabo Verde e os cabo-verdianos!". Percebe-se à légua que decorou a frase há meia hora, graças a um pequeno dicionário que trás no bolso do fato-de-banho. Palavra puxa palavra, o português chega às palavras mágicas. "E bar-gay? Há algum por cá?" Aristides, sério e compenetrado, responde no seu crioulo mais pomposo: "Cá tem!" O português solta longo suspiro. "Ai tem?!" Acaba rapidamente o grogue e despede-se com um "tchauzinho, até mais logo" cheio de entusiasmo. Se tem prestado melhor atenção ao dicionário, teria percebido que "cá tem" significa, em crioulo, exactamente o contrário do que parece. Quer dizer: "Não há, não tem cá!" Porque (também) o crioulo é muito traiçoeiro.
Cabo Verde Língua Portuguesa
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