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Victor Bandarra

“Nós” e “Eles”?

Omar Quintas Chlendi foi baptizado católico numa aldeia de Vila Verde, Braga.

Victor Bandarra 22 de Novembro de 2015 às 00:30

Omar morreu com 25 anos em 2007, na Somália, onde trabalhava para uma organização humanitária. Uma bala perdida acabou com os sonhos de ecumenismo do rapaz que passou 3 anos num cárcere tunisino, onde foi torturado por suspeitas de incitamento ao terrorismo. O pai de Omar, Mohamed Chlendi, é tunisino muçulmano. A mãe, Teresa Quintas, é portuguesa católica praticante.

Esta história começa em 1976, em Paris, para onde Teresa foi viver, muito jovem, em casa de familiares emigrantes. Teresa perde-se de amores por Mohamed, charmoso tunisino de 34 anos. Aos 16 anos, a paixão não conhece religiões e Teresa leva a sua avante: casa-se com Mohamed, contra tudo e contra muitos. Um ano depois está grávida. Vivem nos subúrbios de Paris. Mohamed revela-se autoritário e violento.

Está desempregado e bebe muito, contra os preceitos do seu Alcorão. Mohamed queria 12 filhos, Teresa dá-lhe 6. Com 23 anos, já tem 4 rapazes e 2 raparigas. Omar é o último a nascer. Todos eles de apelido Quintas Chlendi, todos com direito aos passaportes francês, tunisino e português. É assim Paris, é assim a França, é assim a Europa.


Um dia, Mohamed pega nos 6 filhos pequenos e foge com eles para Zarzis, a sua aldeia natal tunisina. Teresa sente o mundo cair-lhe em cima. Mas, minhota decidida, não desiste dos filhos. Ao longo de muitos anos de lutas, viagens e peripécias várias, consegue fazer com que os filhos, um por um, regressem a Paris. Voltam todos menos Omar, muçulmano com 21 anos da Tunísia. Certo dia, o jovem é detido, torturado e condenado por fazer parte de um grupo de 5 estudantes que usariam a internet com propósitos terroristas.


Teresa volta a arregaçar as mangas, agora para provar que o filho não é um perigoso terrorista. Move mundos e fundos, põe organizações de direitos humanos ao barulho, é recebida no Parlamento Europeu. O caso fica conhecido como ‘Processo dos Internautas de Zarzis’. E, um dia, Omar é libertado. O rapaz vem à aldeia de Vila Verde visitar Bernardete, a avó minhota que não percebe nada dessas coisas de islamismos. Bernardete só fala português, Omar só fala árabe e francês. A velha senhora agradece a Deus na igreja da terra, mãos dadas com o neto Omar. Entre a avó católica e o seu neto muçulmano, nunca se interpôs a fronteira entre o "nós" e o "eles". Os atentados de Paris cavaram mais o fosso entre "nós" e "eles". Que a nova "religião" dos jovens, a internet, não lance mais achas para esta fogueira.

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