Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
9
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Victor Bandarra

O almeida da Mauritânia

Olívia perde-se de amores pelo negro bem falante.

Victor Bandarra 13 de Setembro de 2015 às 00:30

O mar e Olívia encontram-se por acaso no Largo do Camões, em Lisboa. Num francês mavioso, Omar solicita informação corriqueira. Olívia responde-lhe num português arrevesado. Nessa noite, gargalham até às tantas, numa tasquinha de fado (ainda) vadio, no Bairro Alto. Manhã alta, acordam saciados numa água--furtada da Calçada do Combro. No princípio dos anos 90, o Bairro acolhia os últimos boémios da velha-guarda, já abafados por carradas de estudantes em busca de choques etílicos. 


Olívia, napolitana, trintona de ancas largas e cabelos de fogo, estuda em Portugal, por conta da família com pergaminhos e de uma bolsa de estudo italiana. Adora livros, fado, pizza, sardinhas e literatura africana. Omar, alto e esguio, negro que nem breu, acaba de chegar de Paris. Fugido dos confins da Mauritânia, define-se como refugiado e exilado político, perseguido pelos árabes e berberes que controlam a sua região natal, no último país do Mundo a abolir oficialmente a escravatura. Diz-se licenciado em sociologia, em Paris. Mas como a vida custa a todos, trabalha como almeida na recolha do lixo lisboeta.


Olívia perde-se de amores pelo negro bem falante. Formam casal exótico e amantíssimo. Um belo dia, eis Olívia de bebé ao colo, pimpolho moreno e luzidio. O casal decide ir viver para o centro de Nápoles, numa mansão degradada, pertença da família de Olívia.


O meu amigo Zé dos Pneus conheceu Omar em Lisboa. Anos mais tarde, em cruzeiro pelo Mediterrâneo, aporta a Nápoles. Em épica noitada pelas ruelas da mais barulhenta cidade italiana, Omar e Zé acabam a trautear o Coimbra e o Santa Lucia pelos bares esconsos do burgo portuário. Omar, sério, confessa que trabalha para a Camorra. É cobrador no sector do lixo, dominado pela organização mafiosa local. Bolsos aconchegados, Omar sabe que, ainda assim, Olívia não aprova em nada as actividades do marido.


Há uns meses, confrontado com ameaça de divórcio, Omar decide pegar em Olívia e levá-la à sua aldeia do Sahel mauritano. Aterram em Nouakchott, a capital. Com todas as cautelas, viajam de táxi, de autocarro e de burro até à terrinha de Omar. É um choque para todos, sobretudo para o seu velho pai. Nessa noite, família reunida, Olívia entende finalmente os meandros, os silêncios e a carreira de mafioso do marido. Fica a saber que boa parte do dinheiro sacado em Nápoles é directamente encaminhado pelo refugiado da Camorra para o povo da sua aldeia. Omar é o amado benemérito local. E quando o pai lhe pergunta qual é, afinal, a sua profissão em Itália, Omar é sincero. "Pai! Sou almeida! Trabalho com o lixo!"
 
crónica de Victor Bandarra Ligação Directa
Ver comentários