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Victor Bandarra

O gajo é poeta? Quem diria!

“O Zeto solta risadinha de afecto: ‘Olha o Herberto! Agora deu-lhe para ver a novela!’”

Victor Bandarra 5 de Abril de 2015 às 00:30

Dona Emília, senhora galega de muito trabalho, vai remexendo a grande frigideira das bifanas. A um canto da pequena casa-de-pasto das Escadinhas do Duque, jovem par de namorados parece sofrer um ataque de bicho-carpinteiro. Olhinhos atentos e flamejantes, viram e reviram pescoços, meio inclinados para a frente. Quando falam, alta voz, soltam coisas do género: "O último do Lobo Antunes é um espanto!" ou "O Herberto Helder devia publicar mais..." Sobre a periclitante mesa de fórmica ostentam um monte de livros. Tudo literatura e poesia. Ela, convictamente esguedelhada, vai utilizando o indicador para encaixar na cara afunilada os óculos tipo-tartaruga. Ele, magrinho e compenetrado, insiste em proclamar a ascendência da Poesia sobre a Literatura, sobretudo em Portugal. Nas mesas ao lado, aviados de umas quantas imperiais e alheados da gongórica conversa do casal, poetas descomprometidos e pensadores encartados discutem temas mais prosaicos com o costumeiro grupo de amigos e simpatizantes.

Por muito que o escritor Zeto Gonçalves insista em dissertar sobre a literatura da sua Angola, ou Luís Carlos Patraquim, poeta maior moçambicano, queira trazer à conversa a novíssima poesia sul-africana. Na mesa mesmo ao lado do casalinho literato, um homem largo, de barba aparada e face talhada a canivete, beberica a imperial e prefere comentar o último jogo do Sporting. E quando Zeto puxa à conversa o grande cinema francês dos anos 60, é tempo de o homem largo enviesar o cavaqueio para uma recém-estreada telenovela. Atrás do balcão, Dona Emília, eternamente de negro, vai virando as bifanas, enquanto a filha, Rosa, trata de atender velhos e novos clientes.


O século XX está a acabar. No "Solar dos Galegos", por entre copos de cerveja e sandes de carne assada, discute-se tudo o que vem à conversa. Não é uma tertúlia, é uma roda de homens e mulheres abertos ao mundo. O homem largo costuma aparecer a meio da tarde, suave e discreto. Não se esconde, é tudo menos um misantropo. E interessa-se muito pela realidade pura e dura. Fala amiúde de "gajas boas", é um filógino, evita tiradas sobre Poesia ou Literatura e manifesta total abertura às grandes e pequenas frivolidades da existência humana.

Como chegou, discreto e suave, assim partiu o homem grande. O Zeto solta risadinha de afecto. "Olha o Herberto! Agora deu-lhe para ver a novela!" A miúda de óculos grossos dá um pulo, com cotovelada ao namorado. "Não te disse?! Era mesmo o Herberto Helder! E tu a dizeres que não!" Atrapalhado, o rapaz engasga-se. "Qu’é que queres?! O gajo só falou de futebol e de telenovelas!"

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