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Victor Bandarra

Portugal very nice!

Muito plástico e baixos salários. De Lisboa a Odemira fez-se vista grossa…

Victor Bandarra 13 de Junho de 2021 às 00:30
José tirou um curso de Contabilidade, mas ganha a vida a tomar conta de estufas. Até há poucos anos, nunca tinha provado uma framboesa, menos ainda um mirtilo. Agora, com ar de capataz, passa o dia rodeado de estufas de plástico como "controleiro" de centenas de rapazes de tez morena vindos da Índia, do Nepal , Bangladesh ou do Sri Lanka. De início, pareciam todos iguais. Agora, José já os distingue. "Os do Nepal até são fixes!" Continua a ser assim pelos campos de São Teotónio, Odemira, que entrou nas bocas do mundo por causa da Covid-19. Abriram-se olhos mas há anos que as estufas e os imigrantes (mais de 15 mil)ocupam as planícies da freguesia. De início, poucos abriram a boca sobre as condições degradantes em que vivem os estrangeiros. Porquê? Porque todos ganham os seus dinheiros (ou dinheirões) com o negócio das frutinhas. Multinacionais sem rosto, geridas por profissionais de "frutos vermelhos" e especializadas em chegar-ver-embolsar-e-abalar, convenceram governantes (que se deixaram convencer) de que, com jeitinho, podia meter-se a martelo a agricultura intensiva no meio de plena área protegida; à custa de muito plástico e baixos salários. De Lisboa a Odemira, fez-se vista grossa. Muita gente da terra passou a alugar uma casinha (onde cabem uns 10 ou 11) por uns mirabolantes 600 ou 700 euros/mês. Tudo porque uma caixinha de "frutos vermelhos" chega a Lisboa a 6 euros, a Paris a 20 e a Nova Iorque a 40. Um "negócio da China" que precisa de muita água. Mas quem é que se preocupa com água se a barragem de Santa Clara está mesmo ali à mão de semear? José olha displicente para o enorme depósito que abastece as estufas. "Ainda há por aí muita água!" Não sabe, ou finge, que a barragem arrisca-se a ficar sem água em poucos anos.

Nos últimos verões, os turistas a caminho das praias do litoral fizeram vista grossa aos magotes de imigrantes postados à beira da estrada à espera e ninguém sabia de quem ou de quê. A maioria das estufas, milhares de hectares, ficam estrategicamente afastadas dos recantos mimosos, com piscina, dos "turismos de habitação" de charme. Só há pouco o turismo local se incomodou com a má publicidade dada pelos trabalhadores das estufas a contas com a Covid-19. Não será em meia dúzia de meses que as multinacionais hão-de abalar de Odemira. A pandemia há-de passar, o negócio dá frutos, o sistema funciona. Os alentejanos da terra suspiram pelo sossego do antigamente, mas muitos viciaram-se nos parcos proventos gerados pela indústria dos "frutos vermelhos". Todo o sistema está bem montado. Ao fim da tarde, junto à igrejinha de Zambujeira do Mar, um nepalês desconfiado assume-se como "coordenador de colheita". Pelas mãos, topa-se logo que não apanha fruta. Palavra puxa palavra, entende-se o fio da meada. Quem é o seu patrão? O homem esboça um sorriso. "Não sei! Era um americano! Agora acho que é um mexicano!" E levanta o polegar. "Portugal very nice! Está tudo controlado!"
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