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Victor Bandarra

Protesto no escuro...

Nos heróicos e desvairados tempos de juventude, César esganiçou garganta e esticou cordas vocais, de punho ao alto, enquanto calcorreava vários partidos da chamada ‘Esquerda M-L’(‘marxista-leninista’), a chamada Esquerda Revolucionária. César, óculos garrafais de miopia galopante, sempre pugnou pelo Poder Popular, contra os ‘revisionistas’ do PCP.

Victor Bandarra 1 de Outubro de 2017 às 00:30

A seguir à Revolução dos Cravos, o jovem sentiu-se mesmo "uma espinha cravada na garganta do Cunhal", na expressão histórica de Heduíno Vilar, então líder da AOC (Aliança Operário Camponesa). Nas primeiras eleições democráticas, a AOC ainda arrebanhou uns 16 mil ‘espinhos’, embora não conste que a garganta de Cunhal se tenha ressentido.

Com o andar dos anos, César acabou por cegar de todo. Deu em estudioso, leitor compulsivo de livros em braille. E sempre, mas sempre, um convicto esquerdista, em corajosos protestos contra tudo e contra muitos. Mas, de escolha em escolha, sobretudo nas Autárquicas, César foi-se desiludindo com a política eleitoral. Ainda por cima, as leis ‘burguesas’ queriam obrigá-lo a ir ao cubículo do voto acompanhado por alguém de confiança, e César nunca foi dado a confianças ou a votos em branco. "Só volto a votar quando houver boletins em braille..."

Em Portugal, há 160 mil pessoas com problemas graves de visão. Destes, uns 20 mil são cegos (incluindo a secretária de Estado Ana Sofia Antunes) e 140 mil amblíopes (com capacidade visual muito reduzida). César insiste em convencer os amigos de que, juntos e bem organizados, conseguiriam eleger uns dois deputados e alguns presidentes de câmara.

Em Portugal, ao longo dos anos, várias organizações propuseram a introdução do voto com "matrizes em braille", para que os cegos possam votar de forma autónoma e privada. O Governo PS já estuda o assunto e o PAN entregou recentemente em São Bento um projecto de lei nesse sentido. Mas César não vai em promessas. Tanto que, nas últimas autárquicas, decidiu-se a votar de novo. Convocou um amigo do peito e compareceu na mesa de voto. A discussão entre os dois passou ao domínio público quando o acompanhante gritou, nervoso, dentro do cubículo. "Ó César! Mas queres mesmo que eu ponha isso?!" E César a insistir, sem rebuços nem vergonhas. "Nunca ouviste falar na anulação do voto com inscrição revolucionária?!" Curiosidade na sala. "Escreve aí! Somos ceguinhos mas não votamos no escuro! Pelo voto em braille! Viva o Poder Popular!"

antiga ortografia

Ligação Direta Victor Bandarra
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