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Victor Bandarra

Uma senhora italiana

As mulheres pelam-se por Amílcar, e os homens fingem que não notam.

Victor Bandarra 26 de Julho de 2015 às 00:30

"Olá Amílcar!" A saudação chove em várias línguas. São inglesas, italianas, espanholas, portuguesas, alemãs. Umas feiosas, outras bonitas, algumas esplendorosas. Umas meninas e moças, outras entradotas, algumas avós enrugadas. Amílcar sorri, sorri sempre, dentes alvíssimos em tez de um negro metálico e luzidio. Alto, espadaúdo, gingão, Amílcar serve-lhes daiquiris e coquetails variados, às vezes rum, uísque e até grogue, dono e senhor do bar junto à piscina de um hotel na ilha da Boa Vista, em Cabo Verde. As mulheres pelam-se por Amílcar, e os homens, maridos ou namorados, fingem que não notam o sucesso do negrão.

Amílcar não nasceu Amílcar, é o nome-de-guerra escolhido a gosto, sabe ele bem porquê. O rapaz fala crioulo, português, inglês, italiano, até uns toques de alemão e holandês. Aliás, o que ele fala na perfeição é o francês, com sotaque do Golfo da Guiné. Nasceu em Bafatá, na Guiné-Bissau, cresceu em Madina do Boé, fez-se à vida na vizinha Conacri e trabalhou num bar de Dakar, no Senegal. Diz ele que só não fala bem mandinga, mas é capaz de ser mentira.


Amílcar é o mel do hotel e as abelhinhas europeias volteiam à sua roda, risinhos soltos, beicinhos descaídos e olhares pestanudos. E Amílcar sorri, atencioso e bem-disposto. À noite, o rapaz obriga-se ainda a dar o seu pezinho de dança nas pistas onde se debitam as músicas da moda, quase sempre assassinadas por raparigas louras, doidinhas por uma aventura exótica. Amílcar pouco sabe da história da Boa Vista que lhe dá trabalho e sustento, e não sabe que foi na ilha das dunas que nasceu a morna.

Nunca ouviu falar do grande Eugénio Tavares, o poeta das toadas dolentes, que disse um dia que o povo da ilha de Celina Pereira é o mais alegre, mas também o mais amorável, das gentes do arquipélago crioulo. O que Amílcar sabe (e por isso escolheu o nome) é que passou a meninice a ouvir falar de Amílcar Cabral, o obreiro da independência da Guiné e de Cabo Verde. Sabe, como poucos, que foi perto de Madina do Boé, numa mata de Lugadjol, que foi proclamada a independência do seu país, a 24 de Setembro de 1973, ainda antes da revolução de Abril. Amílcar Cabral fora assassinado oito meses antes.


Às voltas com os preparativos de um coquetail esquisito, Amílcar dá paleio a duas jovens italianas, babadas de espanto com o sotaque e a gíria napolitanas do africano. Amílcar gesticula à maneira transalpina e logo ali fica combinada uma noitada das antigas. Já de volta à sangria portuguesa, Amílcar acaba por fazer uma confissão. "Sabes uma coisa, sou independente graças a Amílcar Cabral… mas também graças a uma senhora italiana que me visita duas vezes por ano aqui em Cabo Verde…" E sorri, o malandro, já com nova bateria de balzaquianas à ilharga.
crónica de Victor Bandarra Ligação Directa
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