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Correio da Manhã

Opinião
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9 de Setembro de 2007 às 00:00
No século XIX, o major-general Carl von Clause-witz falava do “nevoeiro da guerra”. Encadeado complexo onde a árvore encobre a floresta, onde há demasiadas peças necessárias para o entendimento global, onde a vitória final parece derrota parcial, e vice-versa, onde os elementos externos (da política à economia) contaminam os dados exógenos, a guerra, como “fenómeno”, necessitava de estudo aturado. Na investigação criminal pode dizer-se o mesmo.
O caso Maddie, em Portugal e no Reino Unido, é exemplar, a esse respeito. Repare-se que, ao lado do processo criminológico, científico, pericial, onde as polícias e laboratórios dos dois países colaboram exemplarmente, existe um caos de informação, desinformação, manipulação e ignorância que, como na guerra, afectam a percepção pública.
O pior de tudo é a divulgação de ‘factos’ que envolvem uma partícula de verdade e uma montanha de inexactidões, falsidades e mentiras.
Nos instantes iniciais o PM ‘em espera’, Gordon Brown (que, mais de uma década mais velho do que Gerry McCann, não podia ter frequentado as mesmas escolas), prometeu ajudar na campanha para encontrar a criança.
Em Lisboa e no Algarve, a embaixada britânica mobilizou-se como nunca se vira antes. Uma equipa de especialistas ingleses permaneceu em Portugal. Houve ansiedade e o previsível pedido de recursos adicionais às autoridades nacionais. Mas significa isto que o poder político de Londres quererá forçar uma conclusão determinada no processo? Que se diga branco onde só se vê preto?
BRUMA (II)
E poderá o cardeal Cormac Murphy O’Connor, hierarca dos católicos da Inglaterra e Gales, ser responsabilizado por ter solicitado à Santa Sé, em Maio, uma bênção colectiva pela criança, ao lado de várias almas angustiadas?
E deverá o FSS, de Brimingham, ser culpado, por ter analisado meticulosamente o que lhe foi submetido?
E é Portugal censurável, por enviar para o Reino Unido amostras que poderiam ter sido analisadas, com a mesma competência (mas a suspeita de terceiros), nas instituições homólogas locais?
Felizmente que, no Reino Unido, há pessoas e entidades responsáveis, nas esferas do poder, para contrabalançar o desnorte da imprensa e o facciosismo dos mais tocados. São estas as primeiras a reconhecer que a PJ, o MP e o sistema judicial português agiram, e agem, neste caso, como mandam os livros. E, antes de mais, as leis.
A VOZ DO DESERTO
Bin Laden refere-se ao aniversário de Hiroxima, “ocorrido dias antes”. Falou, assim, em Agosto, já depois da chegada de Sarkozy e Brown ao poder, também mencionada? É uma hipótese. A barba e cabelo, outra vez pretos, mostram vaidade, preocupação ou um postiço?
E o tom geral da mensagem – reflectivo mas ameaçador, ‘filosófico’ mas latente, justificativo mas predicativo – indica uma ‘nova fase’ da al-Qaeda?
Provavelmente. E a prova de que o ‘inimigo público’ não desaparece.
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