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Correio da Manhã

Opinião
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26 de Agosto de 2011 às 00:30

A história ainda é do tempo dos capitães de Abril. Em 1975, o então general Otelo Saraiva de Carvalho foi de viagem oficial à Suécia, acompanhado pelo "almirante vermelho" Rosa Coutinho. À época, Otelo era comandante do poderoso COPCON e já atirava pedras à inteligência. Dizia, por exemplo, que os partidos políticos são "crianças e comportam-se como tal" – e que, "se as armas estão nas mãos da esquerda, estão em boas mãos". O Conselho da Revolução tutelava a democracia.

A visita à Suécia das duas figuras do PREC – o Período Revolucionário em Curso – consta dos diários da Assembleia Constituinte de 25 de Setembro de 1975.

Um deputado do PPD, Fernando Roriz, criticava com graça a viagem dos "Srs. Almirante Rosa Coutinho e General Otelo Saraiva de Carvalho, figuras desde sempre centrais do nosso processo revolucionário, tamanhas têm sido as alturas a que se têm guindado no fulgor da sua cátedra política".

Apesar de continuar a ser muito comentado na internet, o episódio seguinte não aparece em nenhum documento histórico. Em conversa com o primeiro-ministro sueco, o social-democrata Olof Palme, Otelo teria dito com indisfarçável orgulho: "Em Portugal, já acabámos com os ricos." Palme respondeu, com calma: "Nós, na Suécia, preferimos acabar com os pobres."

"Os ricos que paguem a crise" é uma frase revolucionária que volta a estar na moda, a propósito da criação de um imposto sobre as fortunas. À primeira vista, parece uma boa proposta, especialmente num momento de crise. É interessante ver um grupo de milionários franceses ou o terceiro homem mais rico do mundo, Warren Buffet, a defenderem a ideia.

Porém, os seus efeitos são no mínimo duvidosos, sobretudo num país como Portugal, com uma máquina fiscal permeável ao erro. Isto além de não vivermos orgulhosamente sós e ser fácil a fuga de capitais. Para que a riqueza seja distribuída, é preciso que não a afugentem. Não convém matar a galinha dos ovos de ouro.

Trinta e sete anos depois do 25 de Abril, há quem continue a querer acabar com os ricos. Poderá ser uma forma expedita de extinguir as desigualdades – e é também muito mais fácil do que combater a pobreza.

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