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Correio da Manhã

Opinião
27 de Abril de 2011 às 00:30

Quando os monarcas eram o centro do poder, os casamentos reais eram questões políticas delicadas que construíam alianças, abriam crises e tantas vezes anunciavam a guerra. O amor era politicamente irrelevante e a sexualidade sublimada ou questão privada de promiscuidade socialmente tolerada. Desde 1914, a Europa não voltou à guerra por causa da morte de um príncipe. Os príncipes britânicos passaram a casar-se com as namoradas (e a separar-se como os súbditos comuns…) e o pragmatismo político passou hoje para a realpolitik internacional e para a cultura de compromisso nas democracias adultas.

Kissinger é o sobrevivente das relações de interesse da guerra fria a abraçar Brejnev e a jogar pingue-pongue com Mao sempre com o código da bomba atómica no bolso.

O lastro do salazarismo em que a História era a preto e branco leva-nos a confundir interesse nacional com pensamento único, confronto ideológico com bravata pessoal e espírito de compromisso com frouxidão ou submissão a interesses. A evocação de Abril promovida por Cavaco Silva foi a sua melhor iniciativa dos últimos anos. Deu valor simbólico aos Presidentes eleitos em democracia, permitiu provar que diversidade política e de estilo pessoal não são incompatíveis com convergência e lançou um repto de sensatez às lideranças partidárias em período pré-eleitoral.

A atual crise política é um erro grave que levaremos anos a pagar em sacrifícios, juros e prestígio manchado. Os discursos de ontem mostraram a banalidade de Cavaco perante a fibra de Eanes, a memória de Soares e a emoção solidária de Sampaio, mas em Junho volta a ser tempo de Belém esperando que o espírito de Abril seja inspirador.

Agora exige-se frontalidade na discussão da intervenção financeira externa e contraposição das alternativas sem qualquer receio do confronto de ideias e sem fantasmas de ‘União Nacional’. Democracia é diferença entre direita e esquerda, com a tragédia de dois partidos do sistema (PCP e BE) se demitirem de ser parte de qualquer solução.

A 5 de Junho é dia de escolha, mas a seguir o País exige compromisso na pluralidade, as maiorias absolutas são um mito contranatura e mais de vinte países da União Europeia são governados por coligações. Vai ser tempo de prova de maturidade política, vai ser tempo de Casamento de Estado com a vantagem de que o nó é dado só por quatro anos eventualmente renováveis.

Opinião segundo as regrasdo Acordo Ortográfico

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