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António Sousa Homem

Fora do mundo, em Moledo

Viver noutro mundo, de qualquer modo, é uma tarefa cada vez mais impossível pela simples razão de estarmos fechados em casa.

António Sousa Homem 7 de Fevereiro de 2021 às 00:30
Dona Elaine, a governanta deste eremitério de Moledo, que ignora a existência de Schubert e nunca leu um poema de Cesário Verde, culpa-me frequentemente de viver noutro mundo. A acusação tem algum sentido – embora o peso da idade não me tivesse acrescentado outra sabedoria senão a de me valer da memória, razão por que às vezes finjo uma surpresa que não sinto ao ver certas notícias pela televisão. Mas alguém tem de manter a coragem de interpretar alguma hipocrisia; pela idade, cabe-me a tarefa. Ninguém me leva a mal e continuo relegado para o meu posto de vigia dos pinhais de Moledo, naquela saborosa condição de ser anterior aos romances de Carlos Malheiro Dias e, portanto, à maturidade de Vivien Leigh.
Viver noutro mundo, de qualquer modo, é uma tarefa cada vez mais impossível pela simples razão de estarmos fechados em casa. O velho Doutor Homem, meu pai, acreditava que só em casa se estava bem, numa altura em que não havia televisão nem Internet ou telemóveis, mas o correio chegava com pontualidade; o telefone usava-se com uma parcimónia avarenta, e a única ligação ao mundo, naquela velha casa do Porto, para além da rádio, era a leitura de ‘O Primeiro de Janeiro’ e dos jornais ingleses recebidos com uma semana de atraso. Hoje, esse isolamento é impossível: ao pequeno-almoço de torradas e café de cevada, tomado na cozinha, Dona Elaine já tem as principais notícias do dia escutadas na televisão; não contente com isso, comenta-as com loquacidade ao longo da manhã, sobretudo quando a minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família, vem de Braga passar o fim-de-semana.

Nestes tempos de "confinamento", impedida de trabalhar para os ricos de Braga, a quem ensina a decorar as suas casas, Maria Luísa fixou-se em Moledo e passa duas horas por dia ao telefone, dirigindo o seu negócio, ou frequenta o computador fazendo compras que chegam dias depois. Ao mesmo tempo, organizou uma moderada pilha de livros que instalou perto do sofá, e de onde retira um ou outro, baralhando-os com perícia, passando de um romance inglês para as biografias que o Dr. Paulo recomenda com entusiasmo, ou mesmo para uma velharia que me lembro de ter sugerido.

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