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Correio da Manhã

Opinião
28 de Abril de 2010 às 00:30

No seu discurso comemorativo do 25 de Abril, o Presidente Cavaco Silva falou no mar e nas suas indústrias como uma das novas ideias que Portugal devia prosseguir, em busca de um futuro melhor. A aposta no mar, para Cavaco, poderia resolver, ou ajudar a resolver, os graves problemas do país e do seu crescimento económico.

Ou seja, todos devíamos olhar para o mar como uma espécie de bóia de salvação do nosso miserável presente. Ora, convém lembrar que o mar não é, especialmente em Portugal, uma ideia nova ou original. Há milhares de anos, desde os fenícios, pelo menos, que o mar anda por aí a fazer a sua parte no desenvolvimento económico do país. Mesmo na célebre Idade Média das brumas o mar nunca deixou de ter relevância para os que viviam por aqui. Mais tarde, foi mesmo o grande destino de todos os nossos antepassados, e foi pelo mar, como todos sabemos, que se partiu para Brasil, África e Índia, e foi através do mar que vieram os produtos, os escravos, o ouro do Brasil ou as matérias-primas que o antigo Império nos fornecia. A "economia do mar", como hoje pomposamente se designa, sempre existiu em Portugal, e por alguma razão Salazar tanto insistia na importância dos estaleiros da Lisnave e da Setenave ou na construção dos portos de Sines ou Leixões.

A ideia de que Portugal, de um dia para o outro, se esqueceu do mar, é uma tolice. Nunca se esqueceu. O que aconteceu é que, ao longo de mais de mil anos, o mundo foi mudando, e muitas vezes as indústrias do mar de certas épocas foram perdendo a sua importância. Querer agora ressuscitar o mar como destino salvador do país é uma ideia bonita, mas falta perceber o mais importante: de que indústrias, de que mar estamos a falar? Das praias, da pesca, da energia das ondas, da exploração dos fundos, da indústria naval ou de barcos de recreio? De que falamos quando falamos do mar? E qual destas novas indústrias tem potencial para algo tão espectacular como "mudar o destino" de Portugal? Aqui há uns anos, as conservas de atum ainda eram das melhores exportações portuguesas, mas nos dias que correm não vejo nenhuma ideia milagrosa que nos possa, num passe de mágica, relançar a economia.

É claro que, se formos cínicos, podemos sempre lembrar que já investimos no mar muito dinheiro, com a compra de dois submarinos. Se calhar, é esse o nosso maravilhoso destino marítimo: usar os dois novos e caríssimos periscópios à procura de um novo milagre económico...

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