Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
5
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Francisco Moita Flores

SOUSA MARTINS

E Portugal, o País onde nasceu a inveja – o mais pútrido dos pecados teria logo de ser português – atingiu-o duramente.

Francisco Moita Flores 24 de Agosto de 2003 às 00:00
Amanhã vai entrar pela última vez no seu gabinete de trabalho na Polícia Judiciária o coordenador superior Sousa Martins. Chegou ao limite de idade para a reforma. Sai da polícia um dos seus mais brilhantes investigadores. E polémico. Sobretudo por não pactuar com a incompetência.
Em 1978, foi o primeiro agente da PJ a chegar a inspector. A licenciatura em Direito dava-lhe essa possibilidade, pretensão antiga da classe, e, desde então, muitos agentes seguiram o mesmo destino. Foi uma luta dura mas vitoriosa. Porque Sousa Martins tinha já nessa altura um currículo invejável no combate à criminalidade violenta. E Portugal, o País onde nasceu a inveja – o mais pútrido dos pecados teria logo de ser português – atingiu-o duramente. Que tinha sido promovido porque fizera chantagem com um ministro a propósito de uma pasta perdida durante devaneios pedófilos, que fazia parte da rede de burlões da D. Branca. Reagiu com trabalho. Criou a Inspecção da PJ em Setúbal, reorganizou a do Funchal, deu uma dimensão nunca vista à Directoria de Faro. Mais de trinta e cinco anos a fazer amigos. Exactamente os mesmos anos a fazer inimigos. Foi o primeiro agente da PJ a ser seu subdirector e depois director-geral adjunto. Foi de mais para uma instituição que sempre serviu outros interesses corporativos. Sousa Martins trabalhava enquanto conspiravam contra ele. Ameaçou prender responsáveis policiais que se dedicavam ao negócio das apreensões de droga para propaganda jornalística. De imediato, se espalhou o boato que era ao contrário. E continuava a trabalhar. Investigações, capturas, acompanhamento directo de investigações. É um estendal de celebridades criminosas que meteu na cadeia.
Teve o azar de ser corajoso. Quando Fernando Negrão é demitido num processo vergonhoso, resiste à pressão dos que queriam mantê-lo à viva força na direcção da PJ. Demite-se por solidariedade. E lixou-se. O poder não admite actos de solidariedade. Sousa Martins é colocado em Lisboa. Alimenta-se do mesmo entusiasmo como se tivesse 20 anos. Há cerca de ano e meio há uma tentativa de rebelião na Directoria de Lisboa. Só na sua área mais de 20 investigadores pediam para ser transferidos, pois noutro departamento da PJ para além do ordenado havia ajudas de custos a rodos. Entregam-lhe algumas provas dessa forma de corrupção e não está pelos ajustes. Dá um murro na mesa e denuncia a situação. Cometeu um dos maiores erros da sua carreira. O ministro da altura, medroso, chuta para canto. Em vez do MP pede a intervenção administrativa do próprio ministério e a investigação, que a confirmar-se seria maior do que o escândalo da BT da GNR, cai. A onda de inveja e ódio é maior. Escribas serventuários dos rapazes com poder instalado na PJ fazem o trabalho sujo nos jornais. Nos almoços da intriga faz-se o resto. Que foi o Saleiro quem lhe deu o portão da sua casa no Algarve, que foi o homem que construiu a PJ de Faro que lhe ofereceu a piscina, que prendeu um indivíduo com mandado de captura internacional injustamente. Que usou o carro da polícia em proveito próprio. Processos e mais processos em cima. A máquina corporativa, e conspirativa, e da inveja embrulhava-o, julgava-se definitivamente. Até o condenaram por violação do segredo de Justiça. Continuou a trabalhar como se a matilha não o perseguisse e honradamente sai do seu posto de trabalho no dia da sua reforma. Louvado inúmeras vezes, condecorado e reconhecido por vários países, bem se pode dizer que é a referência da persistência, intuição e superioridade moral que dão estofo aos verdadeiros polícias. É com a tranquilidade dos homens honrados que sai daquela instituição. De cabeça erguida e com a inveja a rosnar chafurdices na pocilga dos ódios. Os grandes polícias não o esquecerão. Nem a sua estranha mania de guardar fotocópias da porcaria que lhe passou pela frente. Talvez um dia chegue aí o 'best-seller' sobre os podres dos poderes cobardes.
Ver comentários
}