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Correio da Manhã

Opinião
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9 de Novembro de 2005 às 17:00
Para crentes, não crentes ou simplesmente indiferentes, os acontecimentos de Paris deixam um travo amargo de boca quanto ao que falta fazer ou tem sido mal feito nas nossas sociedades, quando pensamos na recepção de milhares de pessoas que por cá chegam em busca de emprego, mas que procuram bem mais do que a mera sobrevivência.
O cardeal Lustiger, a participar em Lisboa no Congresso Internacional Para a Nova Evangelização, disse ter alertado há muito tempo os políticos franceses para a situação. A Igreja, um pouco por todo o lado, é uma testemunha privilegiada dos movimentos sociais que vão tomando forma ao longo dos anos, porque acompanha as pessoas, onde as pessoas estão – no terreno. E raras são as instituições que o fazem. Mas, entre outros aspectos, a obsessão francesa de desvalorizar o elemento religioso, também não terá deixado perceber o óbvio.
O preconceito ideológico contra a Religião é um sintoma, entre outros, de uma sociedade que convive mal com a diferença e que a pretende abafar, quase reduzindo a expressão religiosa a um mero exercício privado.
A visão puramente materialista do homem (que tão maus resultados deu no Leste europeu) e a opção por um ser humano religiosamente anulado (lembre-se a lei francesa contra o uso público de símbolos religiosos) são duas faces da mesma moeda – ambas procuram prescindir do transcendente na vida social.
As dificuldades dos imigrantes terão muitos factores e alguns deles puramente económicos. Mas a aceitação cultural e o diálogo entre diferentes propostas culturais constituem condições base para a articulação das comunidades que vivem actualmente no espaço europeu.
Não se trata tanto de integração, no sentido de uns procurarem convencer culturalmente os outros, mas sim de encontrar uma articulação baseada no respeito mútuo.
Sem articulação cultural, que é também uma aprendizagem, os imigrantes continuarão a ser olhados como mal necessário (à economia, por exemplo) e os países anfitriões nunca deixarão de ser vistos como a face arrogante de uma cultura diferente.
Sendo evidente o problema cultural, designadamente ao nível das segundas gerações, não estão completamente identificadas todas as razões objectivas para o que se está a passar concretamente em França. Haverá planeamento entre grupos dos diferentes bairros? Ou estamos perante uma manifestação de rivalidade (negativa) entre eles? Até que ponto o fenómeno de imitação é responsável por este descalabro? De que forma pode a cobertura mediática incendiar involuntariamente os ânimos?
São múltiplos os problemas das nossas cidades, transformadas em aglomerados urbanos, onde muitos nacionais também se sentem estrangeiros.
Para nós, católicos, os desafios da cidade não são maiores do que a resposta representada por Cristo Vivo, de que nos fala o Congresso Internacional Para a Nova Evangelização. Mas Cristo Vivo como proposta a todos e não como imposição a ninguém.
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