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Correio da Manhã

Política
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Concelho com destino de ganhar a vida longe

Murtosa é um dos municípios portugueses mais marcados pela emigração.
João Vaz 22 de Setembro de 2017 às 01:30
Concelho com destino de ganhar a vida longe
Concelho com destino de ganhar a vida longe
Concelho com destino de ganhar a vida longe
Bandeiras dos EUA e de Portugal em azulejo em fachada de casa
Concelho com destino de ganhar a vida longe
Concelho com destino de ganhar a vida longe
Concelho com destino de ganhar a vida longe
Bandeiras dos EUA e de Portugal em azulejo em fachada de casa
Concelho com destino de ganhar a vida longe
Concelho com destino de ganhar a vida longe
Concelho com destino de ganhar a vida longe
Bandeiras dos EUA e de Portugal em azulejo em fachada de casa
As pessoas emigram porque não têm aqui condições para ganhar a vida", sentencia Manuel João da Cunha, de 67 anos. Ele partiu aos 17 anos da Murtosa para França e, após empregos bem-sucedidos em Lyon e Dijon, emigrou para o Canadá, onde esteve 45 anos em Toronto. Voltou com a mulher, canadiana, para viver no que chama "uma terra de maravilhas", com duas reformas pagas do estrangeiro e o pouco rendimento das terras que herdou dos pais. Com o saber que a vida lhe deu, aponta o dedo às elites nacionais que culpa dos males do País.

A Murtosa está sempre a mudar para outro lado. Trata-se do único concelho do povoado distrito de Aveiro que tem hoje menos habitantes do que no primeiro recenseamento, em 1864. Só não é a verdadeira jangada de pedra porque a terra fica. As pessoas vão embora para os Estados Unidos, Canadá, França e outros destinos. Levam, além da mala, a saudade. "O meu sentimento é de portuga", sublinha Manuel João com quem a conversa começou à saída de um minimercado, próximo da igreja de Pardelhas. O objetivo era falar com emigrantes. Resultou à primeira e o acerto repetiu-se nos contactos seguintes. Na Murtosa só se encontram emigrantes, regressados ou de passagem.

Manuel João tem recordações e uma reflexão avançada: "Uma vez ouvi Mário Soares dizer no Canadá que os portugueses iam deixar de ser obrigados a emigrar. Não aconteceu nada disto porque o País não é bem dirigido, não valorizamos nem respeitamos o que temos e liberdade sem educação não é nada. Dá-me pena porque possuímos todas as capacidades, mas não temos políticos à altura. Já viu que os jovens não conhecem a História de Portugal?"

O rol de críticas é tão grande como quantidade de experiências felizes. No Canadá, ficou amigo dos futebolistas Marinho (Atlético e Sporting), Uria (CUF) e dos irmãos Ferreira Pinto (Sporting e Benfica). Obteve a nacionalidade canadiana apresentando o passaporte e o registo criminal em português. "Cá é tudo impossível. A minha mulher queria ter nacionalidade portuguesa e só há burocracia. É preciso pagar tradutor e disseram-me para entregar o assunto a advogado. Vivo com 15 mil euros por ano, não posso esbanjar!"

Bom é vir a Portugal só para umas férias, como acontece com Maria Adelaide Henrique, que encontrámos no centro da Murtosa a passear de bicicleta com o marido. Resumiu a vida num ápice: "Sou da Murtosa, fui levada para os Estados Unidos com pouco menos de dois anos, vivi sempre no estado de New Jersey – agora resido em South River –, tirei licenciatura em Finanças, estou casada há 17 anos, tenho três filhos. Os meus pais vieram cá passar dois meses e aproveitámos para visitá-los." 

Casas mostram gratidão aos EUA 
Uma casa com o nome Casa Branca inscrito sobre azulejos, e outra em frente, na rua do Chão do Senhor, onde o mesmo material serve para mostrar as bandeiras de Portugal e dos Estados Unidos cruzadas dizem tudo sobre a gratidão que os emigrantes da Murtosa sentem pela América.

A vila e o concelho formado por mais três freguesias estão muito representados no outro lado do Atlântico. Com Newark (New Jersey), uma das cidades mais portuguesas dos EUA, situada próxima de Nova Iorque, existe um acordo de geminação.

Mas além dos protocolos estabelecidos, verifica-se uma identificação de estilos de vida com a Murtosa a mostrar uma avassaladora percentagem de moradias individuais. A diferença está na construção feita em ruas muito apertadas e sinuosas, ao contrário da largueza e das linhas retas americanas. E há também a sensação de que a maioria não é habitada durante a maior parte do tempo. Servem sobretudo para férias.
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