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Política

De libertador no 25 de Abril a terrorista com as FP. Conheça a vida de Otelo Saraiva de Carvalho

Capitão de Abril morreu no Hospital das Forças Armadas, em Lisboa, aos 84 anos
Correio da Manhã 25 de Julho de 2021 às 12:58
Otelo Saraiva de Carvalho
Otelo Saraiva de Carvalho FOTO: Getty Images

Otelo Saraiva de Carvalho nasceu no final de agosto de 1936, em Lourenço Marques - agora Maputo - Moçambique. Filho de Eduardo Saraiva de Carvalho e Fernanda Áurea Romão, estudou no Liceu Salazar, na atual Maputo e no Liceu Camões em Lisboa.

Concluiu estudos na Escola do Exército. Partiu para Angola como alferes de Artilharia, chegando a participar nos combates durante a Guerra Colonial entre 1961 e 1963. Nesse último ano foi nomeado instrutor da Legião Portuguesa, que tinha como objetivo defender o património espiritual da Nação e combater a ameaça comunista e o anarquismo.

Otelo voltaria a servir em Angola entre 1965 e 1967, acabando por tornar-se professor na Escola Central de Sargentos. A última comissão ultramarina onde participou foi em Bissau, na Guiné, entre 1970 e 1973.

Regressado a Lisboa, Otelo Saraiva de Carvalho integrou os movimentos militares estabelecendo ligações com o grupo ‘spinolista’ e as alas mais radicais conotadas com o PCP e que começavam a dominar o Movimento dos Capitães.

Apesar do passado em que colaborou com o regime, acabaria por ser um dos Comandantes Militares da Revolução de 25 de Abril de 1974. Otelo dirigiu as operações no 'Dia D', era responsável pelo setor operacional da Comissão Coordenadora do Movimento das Forças Armadas (MFA). 

Depois da revolução viria a ser graduado como Brigadeiro e nomeado Comandante-Adjunto do Comando Operacional do Continente, conhecido como COPCON, sob a dependência do General Francisco da Costa Gomes.

Em março de 1975 é graduado em General de Divisão e passa a comandante do COPCON a 23 de junho desse ano. 

O 25 de novembro de 1975 - uma tentativa de golpe militar conduzido por uma fação das forças armadas e apoiadas pelos COPCON - viria a afastá-lo dos cargos que exercia. Conotado com a ala mais radical do MFA, viria a ser preso na sequência dos acontecimentos daquele 25 de novembro.

Foi libertado três meses mais tarde. Viria a ser candidato nas presidenciais de 1976, onde obteve 16,5% dos votos, sendo o segundo mais votado. Voltaria a concorrer às presidenciais em 1980 depois de criar o partido Força de Unidade Popular (FUP). 

A 25 de novembro de 1983 recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. Foi também durante a década de 80 que foi julgado por liderar a organização terrorista FP-25, responsável pelo assassinato de 17 pessoas. 

Voltaria a ser detido em 1984 e julgado no ano seguinte. Foi condenado em tribunal pelo papel que desempenhou na liderança da FP-25 de Abril, ficando em prisão preventiva durante cinco anos e depois aguardando julgamento em liberdade provisória. Acabaria despromovido a Tenente-Coronel.

Só em 1996 a Assembleia da República aprovou o indulto, seguido de amnistia para todos os presos no caso das FP-25. 

Mais tarde, em 2011, revelou que se soubesse como o país ia ficar, não teria idealizado o 25 de Abril, apontando às "enormes diferenças de caráter salarial" que existem na sociedade portuguesa. Otelo sublinhava que não tinham sido alcançados os objetivos do 25 de Abril de 1974.

Otelo Saraiva de Carvalho morreu este domingo, dia 25 de julho, no Hospital das Forças Armadas.

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