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Correio da Manhã

Política
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Líder do CDS admite que ascensão de Chega é questão séria para a direita

Para Francisco Rodrigues dos Santos, os 500 mil votos alcançados pelo líder do Chega mostram que "há muita gente que está descontente".
Lusa 26 de Janeiro de 2021 às 08:11
Francisco Rodrigues dos Santos
Francisco Rodrigues dos Santos FOTO: António Cotrim
O presidente do CDS-PP concorda que o resultado alcançado pelo candidato presidencial André Ventura "é uma questão séria" para o seu partido e para a direita, propondo uma "visão moderada e sensata" para problemas que preocupam os portugueses.

Em entrevista à Lusa, a propósito do primeiro aniversário da sua eleição como presidente do partido, que será divulgada completa na quarta-feira, Francisco Rodrigues dos Santos disse concordar com o antigo líder Paulo Portas que o resultado eleitoral de André Ventura nas presidenciais, 11,9 %, "é uma questão séria" para PSD e CDS, e garantiu que não a desvaloriza.

Paulo Portas tinha apontado, domingo à noite, o facto de haver um partido populista a obter "dois dígitos" numa eleição e que "não se deve desvalorizar e que representa para o PSD, e ainda mais para o CDS, uma questão séria".

Para Francisco Rodrigues dos Santos, os 500 mil votos alcançados pelo líder do Chega mostram que "há muita gente que está descontente com a situação que o país vive e não se sente realizada com a vida que tem" e que não se sente representada ou ouvida nos seus medos e anseios.

"Um partido como o CDS tem que ter uma lupa para perceber que há um conjunto de temas que não estão a ser discutidos por nenhum outro partido em Portugal, e que deixam uma determinada parte do eleitorado órfão e sem voz", atirou, dando como exemplos a corrupção, reforma do sistema político, coesão territorial, abandono do interior, falta de oportunidades, precariedade ou a segurança.

Alertando que "no silêncio dos moderados haverá o ruído dos fanáticos e dos extremistas", o presidente do CDS-PP defendeu que o partido deve "centrar o discurso" nestas temáticas, apresentado "uma visão moderada, sensata e racional das coisas", para "impedir que haja essa ascensão" do Chega.

Para Francisco Rodrigues dos Santos, "todos os partidos têm que daqui retirar as suas ilações e dirigir o discurso para quem está órfão de uma voz que as represente", devendo "abordar determinado tipo de assuntos com seriedade, com humanidade, com preocupação e apresentar soluções razoáveis", por forma a evitar "entregar esses mesmos problemas a franjas radicais que, por muito estapafúrdias e absurdas que sejam as respostas que apresentam, são as únicas, portanto ficam com o monopólio de uma determinada parte do eleitorado".

O dirigente defendeu que "a história ensina" que os resultados das "eleições presidenciais esgotam-se no próprio dia" e não podem ser transpostas para umas legislativas, por exemplo, e que "quem perdeu estas eleições verdadeiramente foi o Partido Socialista", que não apoiou qualquer candidato.

"E o CDS fê-lo e o seu candidato ganhou" à primeira volta, destacou, apontando que "a vitória foi de Marcelo Rebelo de Sousa", mas o CDS, tendo apoiado o atual Presidente da República e tendo contribuído "para a formação da maioria presidencial", tem razões para celebrar a sua reeleição.

Questionado sobre as razões para o partido não ter apoiado um candidato próprio, o presidente do CDS disse que "todos os ex-presidentes" do partido acompanharam esta decisão, bem como os órgãos próprios, nomeadamente o Conselho Nacional (órgão máximo entre congressos).

Realçando que Marcelo Rebelo de Sousa é "a melhor pessoa" para exercer o cargo e "apresenta um programa no qual o CDS se revê", Francisco Rodrigues dos Santos frisou que apoiar a recandidatura do antigo líder do PSD foi uma decisão "lúcida e racional" e considerou que "a esmagadora maioria" do eleitorado centrista "apostou em Marcelo Rebelo de Sousa nestas eleições".

"Parece que se repente é um crime apoiar-se Marcelo Rebelo de Sousa. Porque é que o CDS tinha de ter um candidato nestas eleições? Para dividir a direita, para dizer que ia a jogo e colocar os interesses partidários acima do interesse nacional?", questionou, recusando que estas eleições sirvam "para ver quanto é que cada partido vale" e criticando "alguns analistas" que disseram que "o CDS desapareceu".

Marcelo Rebelo de Sousa, com o apoio do PSD e CDS, foi reeleito Presidente da República nas eleições de domingo, com 60,70% dos votos, segundo os resultados provisórios apurados em todas as 3.092 freguesias e quando faltava apurar três consulados.

A socialista Ana Gomes foi a segunda candidata mais votada, com 12,97%, seguindo-se André Ventura, do Chega, com 11,90%, João Ferreira (PCP e Verdes) com 4,32%, Marisa Matias (Bloco de Esquerda) com 3,95%, Tiago Mayan Gonçalves (Iniciativa Liberal) com 3,22% e Vitorino Silva (Reagir, Incluir e Reciclar - RIR) com 2,94%.

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