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Política
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Próxima crise financeira virá da "banca sombra", afirma Mariana Mortágua

Deputada do BE foi este domingo oradora num dos painéis do último dia do Fórum Socialismo 2021, a rentrée do partido.
Lusa 29 de Agosto de 2021 às 14:34
Mariana Mortágua
Mariana Mortágua
A deputada do BE Mariana Mortágua antecipou este domingo que a próxima crise financeira virá da "banca sombra", que é constituída por "entidades que não são bancos, mas que agem como se fossem" e onde falta regulamentação.

Mariana Mortágua foi este domingo oradora num dos painéis do segundo e último dia do Fórum Socialismo 2021, a rentrée do BE, que hoje chegou a Almada, distrito de Setúbal, depois do primeiro dia ter decorrido em Braga.

Com o tema "A próxima crise financeira virá das sombras?", a deputada bloquista explicou a falência da Greensill, uma instituição financeira no centro de um escândalo de influência junto do Governo britânico e que envolveu o antigo primeiro-ministro David Cameron, adiantando que, "neste momento, 60% do crédito concedido é concedido por instituições que não são bancos", mas sim por "instituições sombra" que já ultrapassaram o poder dos bancos.

"O que é que acontece quando toda a regulamentação do pós-crise se focou nos bancos, nos critérios de capital dos bancos, nos critérios de liquidez nos bancos, na união bancária que restringe a capacidade de o Estado intervir nos bancos, tudo em nome da estabilidade financeira, mas se deixa o resto, todo o resto do sistema à larga, para fazer o que quer, para se financiar como quer?", questionou.

Para Mariana Mortágua, "não é preciso ser muito clarividente" para dizer que é da banca sombra "que virá a próxima crise financeira", de onde aliás já veio a última.

"Ela virá dos milhares de milhões que são transacionados em ativos, que são emitidos por empresas que não estão cotadas na bolsa - muitas delas, outras estão -, que são falsos sucessos em nome de um jargão tecnológico, mas que na verdade não são nada. Ninguém verificou as suas contas, são financiadas através de esquemas circulares, num contexto de falta de regulamentação", elencou.

A banca sombra, de acordo com a deputada do BE, "são entidades que não são bancos, mas que agem como se fossem, concedem crédito e para conceder esse crédito vão buscar dinheiro ao mercado financeiro em vez de o criar nos seus balanços ou de se financiarem através de depósitos".

A dirigente bloquista lembrou que a própria União Europeia "passou uma lei há pouco tempo para desenvolver o mercado de capitais", sendo a ideia que está por trás disto "tirar os bancos da figura e passar a financiar as empresas assim, diretamente no mercado".

Na perspetiva de Mariana Mortágua, a história da Greensill Capital e de Sanjeev Gupta "é importante e interessante" e "não envolve bancos".

"Estamos habituados em Portugal a ver crises financeiras com bancos, com crédito mal concedido, com abuso de poder por parte de bancos, com ligações muito próximas entre bancos e empresas. Achamos que isso só acontece porque é o sistema bancário português, porque é o capitalismo português, porque é o capitalismo de aviário português, porque é a proximidade das relações económicas portuguesas", referiu.

Apesar de "tudo isso ser verdade", Mariana Mortágua afirmou que é preciso não esquecer "que todas estas relações existem em todas as escalas, inclusive à escala mundial e à maior escala mundial como é o caso do Greensill", que "era o maior emissor de obrigações do mundo".

Em maio, Lex Greensill, chefe de uma instituição financeira no centro de um escândalo de influência junto do Governo britânico, disse lamentar profundamente e assumiu "plena responsabilidade" pela falência.

O empreendedor australiano estava a ser interrogado no parlamento britânico depois de ter sido revelado que o antigo primeiro-ministro David Cameron e a sua equipa enviaram 45 e-mails e mensagens a ministros e altos funcionários públicos relacionados com a Greensill Capital em menos de quatro meses.

O ex-primeiro-ministro contactou os ministros das Finanças, Rishi Sunak, de Estado, Michael Gove, e da Saúde, Matt Hancock, bem como outros ministros, como Jesse Norman, John Glen e Nadhim Zahawi.

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