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Correio da Manhã

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Ex-jornalista defende interesse público das revelações no site Football Leaks

António Varela foi ouvido na 37.ª sessão do julgamento.
Lusa 22 de Abril de 2021 às 14:34
Rui Pinto
Rui Pinto julgado por 90 crimes
Rui Pinto
Rui Pinto julgado por 90 crimes
Rui Pinto
Rui Pinto julgado por 90 crimes
As informações sobre contratos divulgadas no site 'Football Leaks' tinham "óbvio interesse" público e revelaram "matéria que estava oculta" da opinião pública, afirmou esta quinta-feira o ex-jornalista do diário Record António Varela, ouvido na 37.ª sessão do julgamento.

"O objeto de atividade do jornal é revelar matéria nova, dar notícias, e ali havia muita matéria que estava oculta da opinião publica e que tinha óbvio interesse. Não vou deixar de dizer que no interior do jornal havia algumas dúvidas se se deveria dar eco a esta informação, mas dissemos que deveríamos avançar, porque, se não fossemos nós, outro jornal avançaria", explicou o antigo jornalista desportivo.

Na audição de hoje no julgamento em curso no Tribunal Central de Instrução Criminal, em Lisboa, o atual diretor de comunicação do Comité Olímpico de Portugal recordou as origens do site criado por Rui Pinto, em setembro de 2015, e o contacto então estabelecido por quem estava por detrás da plataforma eletrónica, sem deixar de vincar uma dúvida para a qual nunca obteve esclarecimentos.

"No final de 2015, consegui uma entrevista com o 'Football Leaks', mas nem todas as questões foram respondidas. Interrogava-me se o 'Football Leaks' era só uma pessoa ou várias, mas essa questão não foi respondida", notou, salientando: "A minha preocupação inicial era saber quem estava por detrás do 'Football Leaks'. A partir de certa altura percebi que não ia ter resposta".

Assegurando nunca ter recebido qualquer contrapartida financeira da parte do 'Football Leaks', nem saber como é que a plataforma tinha tido acesso aos documentos, António Varela assumiu a "absoluta surpresa" com a magnitude das informações divulgadas então no site, ao expor matéria "muito sensível" na área do futebol. Entre as entidades visadas, a testemunha destacou "publicações minuciosas" acerca do fundo de investimento Doyen.

"Eram coisas que, não sendo ilegais, eram muito estranhas", começou por referir, apontando o foco para a informação "complexa" que estava em causa no fundo de investimento que era liderado por Nélio Lucas.

"Ficava à vista de todos que havia crimes fiscais. Logo por aí o 'Football Leaks' cumpriu o papel para que foi criado. Havia pessoas que estavam a ter um comportamento que não era suposto que tivessem", referiu.

Contudo, António Varela reconheceu também que a atitude do jornal começou a alterar-se com a passagem do tempo, ficando mais "diferida", sobretudo desde o momento em que a Doyen passou a contar com os serviços de uma agência de comunicação.

"Começou a fazer bem o seu trabalho, falando dentro do jornal, e a direção começou a ter dúvidas em relação ao material, começou até a ter receio. Não vou dizer receio da Doyen, mas de todas as pessoas que estavam ligadas àqueles contratos. Uma das coisas que levou o jornal a travar foi uma matéria de um contrato sobre o jogador Luka Jovic. E da parte do 'Football Leaks' começou também a haver um maior distanciamento", descreveu.

Ato contínuo, António Varela recorreu à experiência de quase três décadas naquele diário desportivo para detalhar as consequências que se começavam a recear no jornal.

"Os jornais desportivos em Portugal têm um histórico de relacionamento de grande proximidade com as fontes dos grandes clubes. Estarmos a dar eco a matéria que punha em causa a conduta do clube significava começar a 'secar' as fontes dentro dos clubes. Se no início o efeito surpresa era incontornável, com o passar do tempo começou a ser mais sopesado o interesse que tinha e os danos que poderia causar no relacionamento com as fontes", sintetizou.

Rui Pinto, de 32 anos, responde por um total de 90 crimes: 68 de acesso indevido, 14 de violação de correspondência, seis de acesso ilegítimo, visando entidades como o Sporting, a Doyen, a sociedade de advogados PLMJ, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR), e ainda por sabotagem informática à SAD do Sporting e por extorsão, na forma tentada. Este último crime diz respeito à Doyen e foi o que levou também à pronúncia do advogado Aníbal Pinto.

O criador do Football Leaks encontra-se em liberdade desde 07 de agosto, "devido à sua colaboração" com a Polícia Judiciária (PJ) e ao seu "sentido crítico", mas está, por questões de segurança, inserido no programa de proteção de testemunhas em local não revelado e sob proteção policial.

 

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