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Correio da Manhã

Portugal
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Famílias estão a ser despejadas das casas que ocuparam no Bairro Padre Cruz

"Estou sem palavras. Não sei explicar. Não somos brinquedos ou pessoas descartáveis", afirmou Natália Sousa ao CM.
Rita Luz e Lusa 26 de Maio de 2022 às 11:51
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Famílias estão a ser despejadas das casas que ocuparam no Bairro Padre Cruz

Várias pessoas que ocuparam casas no Bairro Padre Cruz, em Lisboa, estão a ser despejadas das residências pelas autoridades, esta quinta-feira, segundo apurou o Correio da Manhã.

Famílias vulneráveis, muitas delas com crianças e sem dinheiro para pagar rendas no centro da cidade, viviam no bairro social, mas agora estão impossibilitadas de regressar às casas em que habitavam. Outras pessoas, no entanto, estão barricadas dentro das casas.

"Estou sem palavras. Não sei explicar. Não somos brinquedos ou pessoas descartáveis", afirmou Natália Sousa ao CM. "A vereadora disse que daria uma resposta, mas até hoje [quinta-feira] não recebemos nada". 

Algumas pessoas ameaçam arrombar outras casas caso não tenham onde dormir nesta quinta-feira. "Vou passar [a noite] noutra casa. Não posso deixar os meus filhos na rua", revelou ao Correio da Manhã uma mulher, que não se identificou.

Agentes da PSP estão a bloquear a passagem nas ruas, ao mesmo tempo que outros elementos dão continuidade às ordens de despejo.

O alerta foi dado pela Associação Habita, que destacou que algumas famílias, algumas com filhos pequenos, estavam a ser desalojadas das antigas casas de alvenaria do bairro, que ocuparam ilegalmente há alguns anos, "por estarem vazias e não terem outra solução habitacional".

Contactada pela Lusa, a Gebalis explicou que esta quinta-feira e na sexta-feira está prevista a retirada de famílias de seis casas em alvenaria, "em estado de pré-ruína e sem condições de habitabilidade", que foram entretanto ocupadas "ilegal e abusivamente".

Para estas casas existe um projeto de "demolição urgente", para a construção posterior de novas casas de habitação social.

O processo de retirada das pessoas foi ainda "suportado por um parecer da Proteção Civil, a qual, após um diagnóstico prévio efetuado, considerou não estarem reunidas as condições mínimas de habitabilidade dos fogos visitados, face ao total estado de insalubridade e insegurança que apresentavam".

"Tendo em vista repor a legalidade e sobretudo acautelar a segurança das comunidades, está a decorrer uma ação de desocupação de fogos localizados neste bairro camarário, muitos deles em estado de pré-ruína e cujos lotes já se encontravam com demolição urgente agendada, no intuito de aí se construir um novo edificado, que oferecerá condições de habitabilidade dignas às famílias que ali serão alojadas e que obrigatoriamente cumpriram todos os trâmites legais para a atribuição de habitação social", referiu num comunicado.

Tanto a Gebalis como a Habita acrescentam que os moradores ilegais forma avisados de que tinham de sair das casas em novembro do ano passado.

No entanto, a Habita lamenta que a retirada de "famílias vulneráveis com crianças" tenha acontecido "quando estava a decorrer um processo de diálogo da Câmara com [representantes] deste bairro para encontrar soluções", nomeadamente após uma reunião com a autarquia realizada em fevereiro.

"Aquilo que nos foi garantido é que não iam despejar às cegas e que iam avaliar caso a caso", disse Maria João Costa, da Habita, salientando que não há soluções sociais para as pessoas hoje [quinta-feira] retiradas, que "não têm qualquer possibilidade de pagar uma renda ao preço que elas estão em Lisboa".

A Gebalis, empresa municipal que gere 66 bairros sociais em Lisboa, com uma população residente estimada de cerca de 60 mil pessoas, acrescentou que está a acompanhar de perto a desocupação, "juntamente com as forças policiais e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, para uma resposta integrada aos casos de emergência social".

A empresa municipal referiu que identificou até à data "mais de 800 imóveis ilegal e abusivamente ocupados em bairros camarários" e pretende "continuar a envidar esforços no sentido de moralizar o sistema e assim pôr cobro, com a máxima urgência, a situações que se têm perpetuado desde há vários anos".

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