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Correio da Manhã

Portugal
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Idoso foge do hospital

A manhã fazia-se longa quando Manuel Oliveira, de 83 anos, se sentiu indisposto. Começou com suores frios, seguidos de desmaios em catadupa. A ficha médica do idoso não é para brincadeiras: doente de Alzheimer, diabético, vítima de sucessivos acidentes vasculares cerebais (AVC).
22 de Setembro de 2006 às 00:00
Num estalar de dedos foi socorrido pelo INEM, que o conduziu à Urgência do Hospital Garcia de Orta, em Almada. Ali, Manuel Oliveira recuperou os sentidos, mas os resultados dos exames não eram animadores, o que o obrigou a passar a noite entre as quatro paredes do hospital.
A filha, Eugénia Santos, foi mandada para casa. Fez o que lhe pediram, mas de coração apertado. “Estava com um mau presentimento”, confessa. E tinha razões para isso. Eram duas da manhã quando ligou a primeira vez para o hospital. Do outro lado, a resposta: “O doente mantém-se em observação.” Passou a noite em claro. Saltou da cama às 09h00 e voltou a marcar o número. Do outro lado, a mesma resposta. À terceira, simplesmente, não houve resposta, fez-se silêncio e a chamada caiu. À quarta, Eugénia, já fora de si, exigiu explicações. “Deixaram-me pendurada dez minutos para me dizerem que o meu pai tinha abandonado o serviço”, conta, desfeita em lágrimas.
Eugénia e o marido correram para o hospital na esperança de que tudo não passasse de um mal-entendido. Contra todas as rezas, vinha a confirmação: Manuel de Jesus Oliveira desapareceu. Enquanto seguranças e enfermeiros viravam o Garcia de Orta do avesso, Eugénia e o marido passaram a pente fino toda a zona das imediações do hospital, onde encontraram a única pista que dá como quase certa a fuga do doente. O taxista Vítor Borges conta o que viu. “Estava na estrada que liga o hospital à rotunda que dá para o Monte da Caparica quando vi um senhor todo desfraldado, com tubos de soro pendurados, agarrado ao semáforo”, relata, confessando que nunca lhe passou pela cabeça tratar-se de um fugitivo. “Pensei que fosse um sem-abrigo ou coisa assim e segui a minha marcha”, adianta. A roupa envergada pelo idoso descrito pelo taxista coincide, contudo, com a que Manuel Oliveira vestia quando desapareceu, faz hoje uma semana.
Contactada pelo CM, a PSP do Pragal, onde foi feita a participação do caso, adiantou que a Polícia Judiciária de Setúbal já foi informada da ocorrência e a fotografia do desaparecido difundida através da rede de comunicações nacional da PSP. Quanto a pistas – zero. “Provavelmente, a pessoa já não está na nossa área, poderá estar para os lados do Monte da Caparica, mas essa informação não é nossa”, salvaguardou o comissário Lino, comandante local da PSP.
No Hospital Garcia de Orta, as respostas são escassas. “Neste momento, colocamos todas as hipóteses. O doente pode ter saído pelas próprias pernas, mas quem nos diz que não foi raptado? Há essa possibilidade, como tantas outras”, diz Manuel Guerra Henriques, coordenador dos serviços jurídicos do hospital, segundo o qual há garantia de que o sistema de segurança no Garcia de Orta é eficaz. “Até agora, os nossos meios foram suficientes. E ninguém diz que este desaparecimento esteja na base de uma falha”, defende.
O certo é que, pelas próprias pernas ou não, Manuel Oliveira desapareceu. E corre perigo de vida.
60 MIL SOFREM DE ALZHEIMER
Contam-se 60 mil os portugueses que padecem da doença de Alzheimer. Atenta a esta realidade, a Associação Portuguesa de Familiares e Amigos de Pessoas com Alzheimer (APFADA) lançou ontem a reedição do ‘Manual do Cuidador’, para apoiar as famílias portuguesas que convivem de perto com a doença. O livro surgiu precisamente no dia em que se comemora o Dia Mundial da Pessoa com Alzheimer e pretende “responder às questões levantadas por um cuidador quando confrontado com um familiar doente”, segundo Manuela Morais, coordenadora e tradutora da edição portuguesa e membro-fundador da APFADA. “Esta é uma doença muito complicada, os doentes têm comportamentos muito inesperados, por isso acredito que, com este manual, os familiares terão a vida mais facilitada”, disse.
A doença de Alzheimer é um processo neurodegenerativo progressivo, de causa ainda desconhecida. Começa por anular a memória e, gradualmente, domina as restantes funções mentais do doente, até deixá--lo em completa ausência de autonomia. A doença ainda não tem cura, mas já existem formas de retardar o seu desenvolvimento.
IDOSOS MAIS INSTRUÍDOS E SAUDÁVEIS
Portugal vai ter, em 2021, idosos mais instruídos e mais saudáveis, de acordo com um estudo a ser divulgado hoje pela investigadora Filipa de Castro Henriques, no âmbito do Fórum Internacional de Investigadores Portugueses (FIIP), a decorrer no Porto. A jovem especialista, de 27 anos, explica porquê: “Uma vez testadas e comprovadas as hipóteses de que existe uma correlação entre educação e saúde e de que essa situação se manterá até 2021, é--nos permitido afirmar, com confiança, que o aumento do nível de instrução contribuirá para uma melhor saúde da população futura portuguesa.” Assim sendo, o efeito do aumento da esperança média de vida e consequente risco de maior incidência de certas doenças pode ser contrabalançado com o aumento do nível educacional da população.
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