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Correio da Manhã

Portugal
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Pobreza, depois riqueza. No fim, a fraude. Tudo sobre a ascensão (e queda) de João Rendeiro

Ex-banqueiro começou a trabalhar na adolescência, liderou um grande banco português e acabou na cadeia.
Maria Pedro e Pedro Zagacho Gonçalves(pedrogoncalves@cmjornal.pt) 13 de Maio de 2022 às 15:41
João Rendeiro
João Rendeiro FOTO: Duarte Roriz

João Manuel Oliveira Rendeiro nasceu em Lisboa, a 22 de maio de 1952. Filho de João Augusto da Silva Rendeiro e de Joana Marques Gonçalves Oliveira, ambos naturais de Aveiro, cresceu em Campo de Ourique, onde os pais acabaram por abrir uma sapataria.

A família nunca teve uma vida abastada e João teve que arranjar o seu primeiro emprego quando estava no sétimo ano, no Liceu Pedro Nunes, a fazer inquéritos de rua para uma empresa de estudos de mercado. Ao mesmo tempo, começou a praticar basquetebol, vindo-se a tornar capitão da equipa de juvenis no Algés e Dafundo.

Após isso, conseguiu ingressar no Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa (ISEG), onde tirou o curso de Economia. Terminando o curso em 1976, aos 24 anos, com a melhor nota e o título de "melhor aluno", foi recrutado para trabalhar no gabinete de estudos e planeamento do Ministério da Indústria, o que criou o seu primeiro elo de ligação com a função pública.

Rendeiro conseguiu ainda uma bolsa de estudo do British Council, que lhe deu a possibilidade de viajar até Inglaterra para fazer um doutoramento, o que aconteceu no ano de 1977. A tese foi apresentada três anos e meio depois, dando os estudos por terminados.

Em 1984, a consultoria McKinsey abriu um escritório em Lisboa e Rendeiro conseguiu emprego na área da banca, dos seguros e do petróleo. Para além disso, era ainda responsável pela prospeção de clientes para a consultora.

Apesar de tudo, João pretendia levar para a frente o seu sonho de ser empresário. Assim, em 1986, fundou, com mais dois parceiros, a DECA, uma empresa de consultoria. Daí, veio a fundar a Gestifundo que teve uma enorme rentabilidade, tornando-se uma das gestoras com mais dinheiro para investir.

No início dos anos 90, ainda antes de completar 40 anos de idade, João Rendeiro vendeu a Gestifundo, garantindo a sua independência financeira. Assim, conseguiu fundar o Banco Privado Português (BPP), no ano de 1996.

Maria de Jesus – a grande paixão de Rendeiro
João Rendeiro conheceu Maria de Jesus da Silva de Matos, natural de Aveiro, quando ambos tinham 17 anos de idade. Apaixonaram-se e decidiram casar aos 20 anos, a 8 de agosto de 1972, na Igreja de Santa Maria da Murtosa, em Aveiro (celebrariam este ano as Bodas de Ouro do casamento).

O casal não tinha dinheiro para viver sozinho e, nos primeiros dois anos de casamento, tiveram que viver em casa dos pais de Rendeiro, que os ajudavam financeiramente, até conseguirem alugar uma boa casa no bairro de Campo de Ourique (perto da casa e da sapataria dos pais dele). Nesta altura, mal conseguiam suportar os custos do Fiat 128 que os sogros de Maria lhes ofereceram como prenda de casamento.

A mulher trabalhou muito para manter o casal. Enquanto João tirava o curso superior, a mulher teve dois empregos, um como secretária e outro como tradutora, mantendo-se assim até 1999, ano em que deixou de trabalhar para acompanhar o marido nas viagens que fazia pelo BPP.

Quando a vida do casal deu uma volta de 180 graus, mudaram-se para a Quinta Patiño, em Cascais. A mansão de luxo, no lote 81, tinha 14 divisões e mais de 400 m2 de área coberta. A mudança foi um aparato e a casa foi inaugurada com um concerto dado pela fadista Mariza, segundo a revista Sábado. A par da mudança, começaram a conduzir um invejável Porsche 911.

Amantes de arte, viciaram-se em comprar caríssimas peças, juntando uma extensa coleção com centenas de quadros, esculturas e móveis.

Mas nem tudo foi feliz. Em 2001, Maria de Jesus descobriu que tinha um cancro na mama. No livro da jornalista Myriam Gaspar - "João Rendeiro - Testemunho de um banqueiro - a história de quem venceu nos mercados" -, este descreve esse ano como o pior da sua vida. "Dei depois por mim a pensar que se a Maria morresse, eu também queria morrer", disse ele.

Segundo a revista Flash, João Rendeiro, sem filhos para herdar a fortuna, dizia que queria assegurar uma situação confortável para Maria e, ao mesmo tempo, ajudar os sobrinhos. O grosso do património seria doado à sociedade e não herdado pela família, já que, para ele, não faz sentido dar a fortuna que fez a terceiros.

A queda e a ruína do banqueiro
João Rendeiro foi acusado de fraude fiscal, abuso de confiança e branqueamento de capitais num processo em que estava em causa o desvio de mais de 31 milhões de euros por parte do BPP.

Entre 2003 e 2008, atribuíram-se prémios indevidamente e apropriado de dinheiro do banco de forma indevida.

O tribunal deu como provado que os arguidos João Rendeiro, Fezas Vital, Paulo Guichard e Fernando Lima retiraram, no total, 31,280 milhões de euros para uso pessoal.

João Rendeiro viria a ser condenado, em três processos no âmbito do caso BPP, a penas de dez, cinco e três anos de prisão efetiva. Após a condenação, o ex-banqueiro pôs-se em fuga, vindo a ser detido na África do Sul. Foi na cadeia de Westville que viria a morrer, aos 70 anos de idade, preso preventivamente.

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