Barra Cofina

Correio da Manhã

Portugal
8

Restaurante cala telemóveis

O telemóvel pode estragar uma boa refeição. É pelo menos essa a ideia do proprietário de um restaurante em Guimarães, que decidiu desafiar os clientes, pedindo que deixem os telefones à entrada do estabelecimento.
10 de Janeiro de 2005 às 00:00
Carlos Fernandes (à esq.) garante que os clientes ficam satisfeitos por comerem com mais calma
Carlos Fernandes (à esq.) garante que os clientes ficam satisfeitos por comerem com mais calma FOTO: Sérgio Freitas
“Não é proibido, mas incomoda”, é a mensagem que o empresário Carlos Fernandes deixa aos clientes da casa de pasto ‘Nora do Zé da Curva’, garantindo que as pessoas têm aderido com simpatia à ideia de fazer um intervalo na azáfama do dia de trabalho e saborear com prazer a refeição.
“Isto parecia um desconcerto de sinfonias”, desaba Carlos Fernandes, lamentando que “algumas pessoas falam ao telemóvel e até se esquecem do sítio onde estão”, exprimindo-se “num tom demasiado alto”, apesar das conservas serem muitas vezes de foro privado ou de negócios.
Normalmente, as conversas são sobre negócios ou até entre amigos, a propósito de banalidades do dia-a-dia. Mas o que realmente motivou a corajosa decisão de ‘limpar’ os telemóveis da sala de um dos restaurantes mais emblemáticos da cidade-berço foi uma conversa demasiado íntima. “Ela abstraiu-se de tal maneira do local público onde estava, que toda a gente parou de comer para ouvir a conversa, que só posso dizer que era mesmo muito sensual”, adiantou Carlos Fernandes.
Os clientes têm agora a oportunidade de deixar o telemóvel à entrada, mas também há quem os leve para a mesa, mas desligados ou em silêncio – para casos de emergência ou família, mas sempre com a ressalva de falar em tom recatado. Caso contrário, vão falar para o exterior.
“Claro que se a conversa não for agradável, eu é que pago com as favas, porque a comida já nem sabe bem e até parece que o problema é do restaurante”, observa Carlos Fernandes, exemplificando – ainda que em tom de brincadeira – que “se um empresário recebe o telefonema de um bancário a dizer que a conta está a descoberto, lá se foi o caldo”.
OPINIÃO DE CASAS FAMOSAS
CLIENTES SÃO EDUCADOS
Mário Afonso, gerente do ‘Gambrinus’, em Lisboa, considera desnecessário impor regras sobre o uso de telemóveis a quem frequenta o aquele espaço. “Os nossos clientes são educados. Quando o telemóvel toca, levantam-se e atendem a chamada na área do bar”, afirma.
NEM PENSAR EM PROIBIR
“Não temos nada de proibir o cliente de usar um objecto que é dele”, afirma Gabriel Fialho, um dos proprietários do restaurante ‘Fialho’, em Évora, reconhecendo, ainda assim, que, quando um telemóvel toca, alguns clientes perguntam, em tom de censura, se o espaço onde estão é um escritório ou um restaurante.
UMA SUGESTÃO NO MENU
Manuel Moreira, do restaurante ‘Fortaleza do Guincho’ considera adequado que o menu apresente a sugestão: “O toque do telemóvel prejudica a qualidade da refeição.” O escanção observa, porém, que no restaurante onde trabalha “90 por cento das pessoas tem o cuidado de desligar os telemóveis ou silenciá-los”.
"ACHO BEM QUE SE PROÍBA" (Paula Bobone, especialista em etiqueta)
Correio da Manhã – Concorda com a proibição do uso do telemóvel em espaços públicos, nomeadamente restaurantes?
Paula Bobone – Tudo depende do uso que se faz dele. Os portugueses costumam falar muito alto, exibindo os assuntos privados. É uma má-criação. Se não sabem usar o telemóvel, então acho bem que se proíba.
– Quais as regras de educação para o uso do telemóvel?
– Se se está num local público, as pessoas devem pedir licença e retirar-se para atender. Outra regra importante é falar discretamente, baixo, e não aos gritos, como é costume.
– Este aspecto é mencionado nos livros de etiqueta?
– Os livros de etiqueta internacionais já fazem referência aos telemóveis. De resto, há muito tempo que os mais distintos clubes ingleses proíbem a utilização dos telemóveis. Também os portugueses só lá vão com a proibição.
PARLAMENTO ESPANHOL BLOQUEIA SINAL
Os parlamentares espanhóis, ao contrário dos colegas portugueses, não falam ao telemóvel quando estão no hemiciclo. De modo a evitar interferências com os equipamentos de som instalados na sala, o Congresso do país vizinho instalou recentemente um sistema inibidor de sinal, que impede os deputados de usar os aparelhos naquele espaço.
Embora polémica, por falta de enquadramento jurídico, a inibição de sinal tem sido adoptada em alguns países europeus.
Na França, onde foi produzida legislação específica sobre o assunto, as sociedades exploradoras de cinemas, teatros e salas de espectáculos foram autorizadas a bloquear os telemóveis dos espectadores durante as apresentações.
Também na Irlanda, 200 salas de cinema contam com sistemas de bloqueio da emissão de rede.
Ver comentários
}