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Correio da Manhã

Sociedade
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Ataques nas redes sociais, críticas às autoridades, ameaças de morte e deportação: As polémicas com Mamadou Ba

Dirigente do SOS racismo, outrora militante do BE, viu-se envolvido em algumas controvérsias nos últimos anos, ao assumir luta contra o racismo.
Pedro Zagacho Gonçalves(pedrogoncalves@cmjornal.pt) 17 de Fevereiro de 2021 às 19:09
Dirigente do SOS racismo, outrora militante do BE, viu-se envolvido em algumas controvérsias nos últimos anos, ao assumir luta contra o racismo.
Por Pedro Zagacho Gonçalves(pedrogoncalves@cmjornal.pt) 17 de Fevereiro de 2021 às 19:09

Desde final dos anos 90 que se assume como ativista político (chega a Portugal em 1997, para tirar o mestrado em Língua e Cultura Portuguesa, no Instituto Camões), mas só nos últimos anos ganhou maior destaque no espaço público, principalmente na luta que tem desenvolvido na luta pelos direitos dos luso-africanos e afrodescendentes em Portugal. Mamadou Ba tem sido uma voz muito ativa no panorama da luta pelo racismo, mas as posições controversas que algumas vezes manifestou, em especial no que diz respeito à atuação das autoridades em alguns episódios de alegada violência policial, têm-lhe valido a sua quota-parte de polémicas.

Acaba por não concluir o mestrado. Primeiro trabalhou nas obras da Expo 98, depois começa a fazer traduções de francês, até que se filia ao PSR, antecessor do Bloco de Esquerda, bancada parlamentar da qual viria a ser militante, tendo sido contratado por ajuste direto como assessor do partido na Assembleia Municipal de Lisboa. È nesta altura, e já depois de 10 anos em Portugal, que consegue a nacionalidade portuguesa, à ‘segunda tentativa’, após o pedido ser indeferido à primeira e recorrer a Paula Teixeira da cruz para desbloquear o processo . "Era absuro. Porque eu tinha direito nacionalidade, não era nenhum favor que a ministra fazia", recorda a revista SÁBADO o ativista, que nesse período tinha já tido um filho, com dois anos. Era assim que Mamadou Ba, nascido em Kolda, no sul do Senegal, a 2 de janeiro de 1974, se tornava português.

Chegou a integrar a Mesa Nacional do Bloco de Esquerda, como dirigente do partido, mas foi quase sempre através do SOS Racismo, movimento que dirige desde 1998, que mais voz teve.

Mamadou Ba
Mamadou Ba
Mamadou Ba
Mamadou Ba

"A BOSTA DA BOFIA": CRÍTICAS À ATUAÇÃO POLICIAL EM EPISÓDIOS DE VIOLÊNCIA QUE CHEGARAM AOS TRIBUNAIS


"Sobre a violência policial, que um gajo tenha de aguentar a bosta da bofia e da facho esfera é uma coisa é natural, agora levar com sermões idiotas de pseudo radicais iluminados é já um tanto cansativo, carago!". Foi esta a frase que incendiou talvez uma das maiores polémicas em torno de Mamadou Ba.

A declaração foi feita na página de Facebook institucional do ativista, e após um episódio de confrontos entre uma família do bairro da Jamaica, no Seixal, e elementos da PSP, ocorridos em janeiro de 2019.

O caso chegou aos tribunais, estando já deduzida acusação de uma mãe e três filhos, e um agente da PSP. O polícia, de 35 anos, foi acusado de um crime de ofensas à integridade física simples, enquanto a mulher, de 54, responderá por um crime de resistência e coação. Um dos filhos, de 33 anos, foi pronunciado por dois crimes de resistência e coação e sete de injúria agravada, outro, de 35 anos responde por oito crimes: dois de resistência e coação, dois de ofensa à integridade física qualificada, um de dano, um de introdução em lugar vedado ao público e dois crimes de ameaça agravada, enquanto a irmã dos dois homens, uma jovem de 25 anos, foi acusada de seis crimes: dois de resistência e coação, um de dano, um de introdução em lugar vedado ao público e de dois de ameaça agravada.

Logo em 2015, Mamadou Ba já tinha sido uma das vozes mais ativas na crítica à violência policial empregada na esquadra da PSP de Alfragide, após episódios de violência na Cova da Moura, na Amadora, em fevereiro desse ano. O caso viria a ser decidido nos tribunais, com oito do total de 17 agentes da PSP condenados por sequestro e ofensas à integridade física.

Em 2016 já havia subscrito uma petição a defender a "desmilitarização imediata da polícia, e o fim imediato das operações do CIR (Corpo de Intervenção Rápida) nos nossos bairros, como primeiro passo rumo à abolição total da PSP e GNR, e sua substituição por mecanismos de garantia da segurança colectiva, baseados nas comunidades".

O episódio do Bairro da Jamaica gerou polémica após serem mostradas imagens de alegada violência policial, no seguimento de uma ação das autoridades após denúncia de desacatos no Bairro da Jamaica com cerca de 20 pessoas. Após identificação de um dos supostos responsáveis gerou-se arremesso de pedras e troca de agressões entre familiares do suspeito e agentes da PSP. Mamadou Ba faz 'o tal' comentário e acaba catapultado para o centro da discussão pública.

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Caso Jamaica valeu inquéritos disciplinares à PSP

O comentário feito por Mamadou Ba a propósito da citação gerou uma enorme onda de revolta e críticas apontadas ao dirigente do movimento antirracista SOS Racismo, o que o obrigou a justificar-se, novamente no Facebook, dizendo que a expressão usada para se referir aos agentes da autoridade não dizia respeito a um todo, mas sim a "agentes de autoridade cujas caixas de comentários são autênticos aterros de lixo racista".

"Ontem, denunciei dois perfis Facebook ligados a agentes de autoridade cujas caixas de comentários são autênticos aterros de lixo racista. Passado algum tempo, os perfis desapareceram. O que é bom.
Ao fim da tarde, publiquei um post dando conta da minha impaciência em aturar os sermões idiotas dos pseudo revolucionários iluminados em comparação com a obrigação que tenho de lidar com a bosta da bofia e da facho esfera. A partir daí, comecei a receber vários tipos de insultos e ameaças. E sim, bater em alguém porque é negro ou cigano, é uma bosta. Matar alguém porque é negro ou cigano é pior que uma bosta", escreveu Mamadou Ba em reação às suas declarações polémicas.

"A partir daí, comecei a receber vários tipos de insultos e ameaças. E sim, bater em alguém porque é negro ou cigano, é uma bosta. Matar alguém porque é negro ou cigano é pior que uma bosta"

Mamadou Ba, ativista e dirigente da SOS Racismo

AMEAÇAS DE MORTE MOTIVARAM PEDIDO DE SEGURANÇA ÀS AUTORIDADES


O episódio transbordou as redes sociais e acabou mesmo com implicações políticas e ameaças de agressão e até de morte, dirigidas não apenas ao ativista, assim como à ‘colega’ bloquista Mariana Mortágua. O clima de ameaça manteve e agravou-se, abarcando também Joacine Katar Moreira, que chegou pelo Livre à Assembleia da República em 2019. Um email recebido em agosto desse ano por várias figuras do movimento antirracista em Portugal, alegadamente da organização de extrema-direita "Nova Ordem de Avis - Resistência Nacional", que ameaçava com "medidas" para "garantir a segurança do povo português", caso Beatriz Gomes e Mariana Mortágua do BE e a deputada Joacine Katar Moreira, o dirigente do SOS Racismo, Mamadou Ba e o ativista Jonathan Costa não se demitissem.

Leia o email com ameaças na íntegra:

"Informe da Nova Ordem de Avis - Resistência Nacional:

- Beatriz Gomes

- Danilo Moreira

- Joacine Katar Moreira

- Mamadou Ba

- Jonathan Costa

- Rita Osório

- Vasco Santos

- Luís Lisboa

- Melissa Rodrigues

- Mariana Mortágua

Informamos que foi atribuído um prazo de 48 horas para os dirigentes antifascistas e antirracistas incluídos nesta lista, para rescindirem das suas funções políticas e deixarem o território português.

Sendo o prazo ultrapassado, medidas serão tomadas contra estes dirigentes e os seus familiares, de forma a garantir a segurança do povo português. O mês de Agosto será mês da luta contra os traidores da nação e seus apoiantes. O mês de Agosto será o mês do reerguer nacionalista."

O caso motivou investigação da PJ, escassos dias depois do meso grupo nacionalista ter organizado uma manifestação com máscaras brancas e tochas à porta da associação SOS Racismo, contra o "racismo antinacional". O protesto levou a que fosse apresentada queixa no MP por parte da SOS Racismo.

O caso subiu de tom e voltou a gerar ondas após os visados pelas ameaças terem pedido proteção policial, por terem visto a sua segurança ameaçada, ao Governo, que acabou por oferecer proteção policial aos ativistas e deputadas. A decisão elevou de tom as críticas, que também, por esta altura, também já partem de apoiantes do Chega de André Ventura, crítico assumido de Mamadou Ba, assim como do PNR, que pede a sua demissão do cargo de assessor do Bloco de Esquerda.

Mas os ataques chegam também do PSD, com o deputado João Moura a acabar por ter de se justificar depois de fazer uma publicação, que viria a apagar, onde se lia: "Bamos lá a Ber se nos entendemos! O Mamadou ba, chamou bosta à Bófia, leia-se polícia de merda, agora sente se inseguro e pede segurança policial(…). Ó Mamadou e se fosses ba(rdamerda)!".

O social-democrata viria a dizer depois sobre o tema que se tratou de "um desabafo numa página pessoal" e que não quis "faltar ao respeito" a Mamadou Ba.

Sobre as críticas, que Mamadou é conhecido por desvalorizar e minorizar, classificou-as de"manobras de diversão", feitas para "omitir o que é essencial".

"Bamos lá a Ber se nos entendemos! O Mamadou ba, chamou bosta à Bófia, leia-se polícia de merda, agora sente se inseguro e pede segurança policial(…). Ó Mamadou e se fosses ba(rdamerda)!"

A SAÍDA DO BLOCO DE ESQUERDA DEVIDO A "PROFUNDA DIVERGÊNCIA" NO CASO JAMAICA E ATAQUE AO BENFICA

O episódio da intervenção policial no bairro da Jamaica, na Amadora, viria a ditar o fim do vínculo (pelo menos direto) de Mamadou Ba com o Bloco de Esquerda, até então assessor do partido, que foi também membro da Mesa Nacional do Bloco de Esquerda, da Comissão de Direitos do partido e da Coordenadora Concelhia de Lisboa do BE

"A minha desvinculação resulta de uma profunda divergência, pois o que renego não é o projeto que deu origem ao Bloco, mas no que o partido se tornou ao longo do tempo", escreveu na altura Mamadou Ba.

Acabava assim a ligação que tinha começado logo depois da chegada do ativista a Portugal. Logo depois, Mamadou parte ao ataque ao treinador do clube do seu coração o Benfica.

No episódio do insulto racista no jogo entre PSG e Basaksehir, da Champions, no qual o quarto árbitro, o romeno Sebastian Coltescu, descreveu o treinador adjunto dos turcos, o camaronês Pierre Webo, como "negro", Jorge Jesus regiu e gerou polémica: "Isso do racismo está muito na moda. Como cidadão, tenho o direito de pensar à minha maneira. Só posso ter uma opinião concreta sabendo o que se disse, porque hoje qualquer coisa que se possa dizer contra um negro é sempre sinal de racismo. Se se disser a mesma coisa contra um branco, já não é sinal de racismo. Se calhar, até houve algum sinal de racismo, mas não sei o que disseram".

Em jeito de resposta, Mamadou Ba lamentou as declarações do técnico encarnado e ‘colou-o’ a André Ventura, também fervoroso adepto do Benfica.

"Já nem uma formiga se pode pisar. Um pontapé no cão é maus tratos contra animais. Insulta-se um negro é logo racismo. Mas, já nem se pode agredir um negro apenas por ser é negro? Agora é tudo racismo (…). Oh meu rico Benfica, que junta o Ventura ao Jesus!", disse então o ativista no Twitter.

"É PRECISO MATAR O HOMEM BRANCO, ASSASSINO, COLONIAL E RACISTA": BA CITA FILÓSOFO FRANCÊS, ATACA MARCELINO DA MATA E ACABA COM DEPORTAÇÃO PEDIDA


Foi no final do ano de 2020 que Mamadou Ba volta a dar que falar, devido a uma participação sua na conferência online organizada pelo canal online Pensa Africanamente, dedicada ao tema "Racismo e Avanço do Discurso de Ódio no Mundo"

Na sua intervenção, o luso-senegalês evocou um pensamento do filósofo francês Frantz Fanon (segundo o próprio), e aludiu que "é preciso matar o homem branco, assassino, colonial e racista" de forma a "evitar a morte social do sujeito político negro", segundo as teorias do pensador que se especializou na psicopatologia da colonização.

A reação foi quase imediata nas redes sociais, com uma enchente de críticas ao ativista nas caixas de comentários.

Entretanto, já no início de 2021, Mamadou Ba e a SOS racismo associam-se a uma petição, que chegou à Disney, para que o filme ‘Soul’ voltasse a ser dobrado em português, com vozes negras que representem a "importância histórica" do momento. Isto porque estaria em causa o facto da personagem principal, assim como várias outras da película, no original norte-americano são dobradas por atores negros, enquanto em Portugal seriam atores brancos a dar voz aos protagonistas.

A carta aberta ficou sem resposta do gigante de animação, mas não fez esquecer as declarações de Ba na conferência que geraram polémica.

Logo depois, é escolhido pelo Governo para integrar o recém-constituído Grupo de Trabalho para a Prevenção e o Combate ao Racismo e à Discriminação, uma nomeação que vale críticas do CDS-PP, inflamadas pelas declarações do ativista na conferência, semanas antes.

A morte de Marcelino da Mata, o militar mais condecorado da história do Exército português, no dia 11 de fevereiro de 2021, vítima de Covid-19, viria a dar mote a mais uma polémica com Mamadou Ba.




O tenente-coronel, que se destacou na Guerra do Ultramar, foi chamado de "criminoso de guerra" pelo ativista nas redes sociais. "Queixam-se do uso displicente do qualificativo ‘fascista’ e refutam a filiação ideológica ao fascismo. Mas investem na homenagem a figuras sinistras como Cónego Melo, Kaúlza de Arriaga e Marcelino da Mata. Marcelino da Mata é um criminoso de guerra que não merece respeito nenhum", lê-se numa publicação feita no Twitter.

O ataque ao histórico militar fez a água levantar (ainda mais) fervura e o CDS-PP exige que Ba seja afastado do Grupo de Trabalho para a Prevenção e o Combate ao Racismo e à Discriminação.

"O racista Mamadou Ba não pretende apenas 'matar o homem branco', o seu ativismo fanático dispõe-no também a 'matar o homem negro' se leal e patriota. Refere-se a Marcelino da Mata em termos inaceitáveis: 'figura sinistra', 'criminoso de guerra' ou 'malogrado sanguinário'", afirmam os centristas.

Logo depois, e com a opinião pública incendiada, começou a circular uma petição pública online que pede a deportação imediata de Mamadou Ba. "Serve a presente petição pública para que a Assembleia da República vote favoravelmente pela expulsão de Portugal de alguém que não se sente bem em Portugal nem com a nossa cultura e valores. Que esta expulsão sirva de exemplo", lê-se na página.

Até esta quarta-feira, a petição tinha sido assinada por mais de 15 mil pessoas.

"Não havendo Tarrafal, nem crime de opinião, o que farão o CDS e o Chega com as 15 mil assinaturas que promoveram? Mandar matar-me?", respondeu o ativista no Twitter, mostrando que, mais uma vez, não é afetado pelas críticas, mas aproveita para atacar o CDS-PP e o Chega.

 

"Qualquer coisa que me acontecer, os autores morais são o CDS e o André Ventura. Porque, enquanto estiver vivo, não me calarei, nunca.", desafia o luso-senegalês.

"Qualquer coisa que me acontecer, os autores morais são o CDS e o André Ventura. Porque, enquanto estiver vivo, não me calarei, nunca."

Mamadou Ba, ativista e dirigente da SOS Racismo