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Correio da Manhã

Sociedade
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"Estavam a ser operadas cataratas sem justificação"

O antigo presidente da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia (SPO), António Travassos, considera que são realizadas demasiadas cirurgias às cataratas sem justificação, o que implica que se esteja a gastar dinheiro público de forma incorrecta. Estas declarações surgem um dia depois do Ministério da Saúde anunciar que foram feitas mais que o "habitual " entre 1 de Junho de 2008 e 30 de Junho de 2009.
9 de Fevereiro de 2011 às 12:29
António Travassos fala de 'moda' e compara com as operações ao apêndice
António Travassos fala de 'moda' e compara com as operações ao apêndice FOTO: Mariline Alves

O oftalmologista disse esta quarta-feira que há um ano e meio, quando ainda estava à frente do órgão, terá avisado o secretário de Estado que "estavam a ser gastos dinheiros de forma incorrecta e que podiam ser usados para tratar doentes com cancro".

"Eu, como oftalmologista, não posso aceitar isto", sublinhou António  Travassos, acrescentando que "aquilo que se fizer aos doentes é porque tem  que ser e porque o doente necessita e não porque alguém tem interesse em  fazer", afirma o médico.

Segundo o mesmo, o secretário de Estado não lhe deu razão na altura,  apesar de "passado um ano" ter admitido que "não há orçamentos ilimitados"  e ter acabado por concordar com os avisos de António Travassos.

Para o oftalmologista, não é só nas cirurgias às cataratas que "têm sido feitos erros enormes na forma como têm sido adjudicados serviços", e, por isso, é necessário que tudo seja "perfeitamente esclarecido" para  que a medicina não se transforme num negócio ilícito".  

As cirurgias "também fazem parte, de algum modo, da moda, como foi há muitos anos operar o apêndice quando não havia apendicite nenhuma mas em que as pessoas eram operadas para prevenir", lembrou.  

Para António Travassos, é preciso apostar em registos "para memória  futura" porque "a qualquer momento quem paga tem que saber o que paga, quer  seja a companhia de seguros, os privados ou o Estado".

Uma auditoria do Tribunal de Contas aos resultados do  Programa de Intervenção em Oftalmologia revela que estes foram insatisfatórios e mostraram uma "fraca taxa de execução" de 59 por cento nas cirurgias e 41  por cento nas primeiras consultas.  

O Programa tinha como meta realizar 30 mil cirurgias às cataratas em produção adicional nos hospitais públicos e realizar 75 mil consultas da especialidade,  num ano, entre 1 de Junho de 2008 e 30 de Junho de 2009.  

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