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Correio da Manhã

Sociedade
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Mães organizaram ‘cilada’ à professora

"Eu e outra mãe de uma aluna tomámos a decisão de colocar o gravador na mochila da minha filha. Com o conhecimento dela, obviamente.” Carla Morais assume ao CM ter sido uma das mentoras do plano premeditado que visava apanhar Josefina Rocha, professora de História na EB 2,3 Sá Couto, em Espinho, a manter conversas sexuais menos próprias com alunos do 7º ano.
21 de Maio de 2009 às 00:30
Os últimos dias têm sido de agitação na escola de Espinho. Mães prepararam ‘cilada’ para apanhar a docente
Os últimos dias têm sido de agitação na escola de Espinho. Mães prepararam ‘cilada’ para apanhar a docente FOTO: D.R.

Sobre um possível castigo à sua filha pela autoria da gravação, a encarregada de educação revela-se “tranquila e despreocupada”. “Foi sem o conhecimento da escola”, acrescenta Carla Morais, mãe que avançou com o esquema que resultou na suspensão imediata de funções da professora de História.

Já Rui Malheiro, docente responsável pelo inquérito que está a decorrer, garante que o regulamento interno da escola prevê penalizações neste tipo de casos. “No entanto, tenho as minhas reservas quanto a isso, pois ainda há pouco vi na televisão um psicólogo a defender o uso de gravadores nestas situações”, desenvolve.

Contactada pelo CM, a professora visada prefere não comentar o assunto. “Não quero prestar declarações, peço desculpa”, disse Josefina Rocha, após um longo silêncio e com uma voz embargada que deixam bem patente o seu estado de alma. A confusão que se instalou em frente à Escola Sá Couto e à casa da professora tem deixado marcas, até na família mais próxima: a mãe de Josefina terá um problema de saúde e agora evita sair à rua para não ser interpelada.

O presidente da Associação de Pais da escola, José Carvalhinho, lamentou o facto de terem sido “deixados de parte”, tendo recebido a informação pela Comunicação Social. A reunião prevista para anteontem foi anulada, porque o momento não foi considerado o mais propício. “Pretendemos que o ambiente de paz e sossego volte à escola”, afirmou Carvalhinho.

Além de uma petição a favor da professora de História, alguns alunos organizaram para a manhã de hoje uma manifestação de apoio a Josefina Rocha, de 40 anos.

CASO 'ALARMOU AS FAMÍLIAS'

O líder parlamentar do CDS-PP, Diogo Feio, considerou ontem no Parlamento que o caso de Espinho causou alarme nas famílias, deixando-as entre o choque e a preocupação e defendeu que “a intimidade, os afectos e a sexualidade não são competências do Estado”. Uma posição que mereceu críticas dos partidos de Esquerda, PS, PCP e Bloco de Esquerda, que acusaram os centristas de misturar o episódio de Espinho com a oposição do partido à Educação Sexual nas escolas. Bernardino Soares, deputado do PCP, considerou a afirmação “inaceitável”.

“O que a escola pública tem de dar a todos os estudantes é informação, para todos terem conhecimento do que é a educação sexual, é saber se queremos evitar mais gravidezes indesejadas ou doenças sexualmente transmissíveis.”

Já o deputado Pedro Duarte, do PSD, defendeu que a educação sexual deve ser estabelecida “respeitando as diferentes formas de pensar da sociedade'.

APONTAMENTOS

GRAU ACADÉMICO

“A sua mãe quando falar comigo tem de se dirigir a mim como ‘senhora doutora’”, é uma das frases da professora na gravação.

TEMAS SEXUAIS

Orgias, perdas de virgindade ou cuecas molhadas foram alguns dos temas abordados.

“TENHO DIFICULDADE EM ACEITAR A SITUAÇÃO' (João Dias da Silva,  Presidente da Fed. Nacional dos Sindicatos da Educação)

Correio da Manhã – Como avalia o comportamento da professora de Espinho?

João Dias da Silva – Tenho dificuldade em aceitar a situação e à partida não se compreende. Mas  é necessário conhecer melhor o caso, falar com alunos e professores para compreender o que se passou. Só assim se evitam os juízos precipitados. Se fosse fácil julgar, nem sequer havia processo disciplinar. 

– Receia que o incidente afecte a imagem social do professor?

– Penso que toda a gente percebeu que se trata de uma situação singular: o caso concreto de um professor. As pessoas entendem que não se deve fazer generalizações. Agora, é evidente que os professores devem ser respeitadores do regulamento da escola.

– Como vê o multiplicar de situações de registo áudio e vídeo nas salas de aulas?

– A inovação tecnológica tem-nos colocado perante situações graves. As escolas têm regulamentos que não permitem a entrada de telemóveis. Mas como se pode, na realidade, controlar que os estudantes não os tragam para o seu interior? Não concordo que se utilizem telemóveis dentro das salas de aula e não aceito o argumento de que só com eles se pode provar determinada situação.

 

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