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Correio da Manhã

Sociedade
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Membrana regenera

A aplicação da membrana amniótica (parte interior da placenta) no tratamento de queimaduras graves ou lesões na córnea permite a regeneração da pele.
29 de Maio de 2011 às 00:30
A membrana amniótica é o tecido que reveste a parte interior da placenta. É aplicada no tratamento de queimaduras e de lesões na córnea. Os tratamentos são eficazes e a regeneração revela-se rápida
A membrana amniótica é o tecido que reveste a parte interior da placenta. É aplicada no tratamento de queimaduras e de lesões na córnea. Os tratamentos são eficazes e a regeneração revela-se rápida FOTO: DR

Este tratamento com tecido humano está a ser utilizado em vítimas que sofreram queimaduras graves (provocadas num incêndio, por derrame de líquidos a ferver ou de produtos químicos ou ainda vítimas de acidentes de viação que sofreram esfolamentos graves da pele) e em pacientes com lesões na córnea provocada por conjuntivites graves.

Maria da Cruz, responsável pelo Gabinete Coordenador de Colheita e Transplantação do Hospital de São José (Lisboa), explica ao Correio da Manhã que a colheita da membrana amniótica é possível graças à doação das grávidas saudáveis, que têm os filhos através de cesariana e não por parto natural, isto para "evitar qualquer tipo de contaminação do tecido". Para doar tecido, a grávida tem de assinar um formulário de consentimento.

As colheitas de membrana amniótica no Hospital de São José aumentaram desde que a unidade hospitalar iniciou esta actividade, em Maio de 2007: no segundo semestre desse ano, fez 17 colheitas. Em 2008 foram 45 e, em 2009, foram realizadas 59 colheitas.

No ano passado, verificaram-se 102 colheitas, um aumento justificado com a entrada na actividade do Gabinete de Colheitas das recolhas realizadas nas maternidades dos hospitais Garcia de Orta (Almada) e Cuf Descobertas (Lisboa).

A membrana é colocada numa arca selada e fechada com fita adesiva inviolável. O produto é criopreservado (conservado a quatro graus negativos) e submetido posteriormente a várias análises e tratamentos no Centro de Histocompatibilidade do Sul, responsável pela colheita e transplante de órgãos e tecidos. Maria João Aguiar, coordenadora nacional das Unidades de Colheita de Órgãos, Tecidos e Células para a Transplantação, afirma ao Correio da Manhã que "o stock da membrana amniótica é muito alto e suficiente para as necessidades do País" e salienta que "se houvesse um acidente com muitos queimados, teríamos tecido em quantidade suficiente para os tratamentos".

UMA CENTENA DE DOENTES COM LESÃO DA CÓRNEA JÁ TRATADOS

O director do Departamento de Oftalmologia do Hospital de São José, Pita Negrão, garante que o tratamento de problemas oculares com a membrana amniótica "tem revelado excelentes resultados". O responsável sublinha que o número de doentes tratados

ascende a "uma centena". O oftalmologista Pedro Candelária, especialista no tratamento de córneas com a membrana, sublinha as vantagens da aplicação do tecido: "A membrana é anti-inflamatória, tem poder antibiótico e antibacteriano e consegue regenerar a córnea ao fim de 15 dias a três semanas". Segundo o especialista, os doentes que têm sido atendidos nos serviços de Oftalmologia dos hospitais de São José e dos Capuchos, que integram o Centro Hospitalar de Lisboa Central, sofreram, na sua maioria, "queimaduras oculares devido a acidentes domésticos, como o derrame de lixívia ou de cal, que provocam lesão na córnea e a destruição de células".

INVESTIGAÇÃO É FEITA COM RATINHOS

Os médicos do Serviço de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva do Hospital de São José desenvolvem as investigações com a membrana amniótica em ratinhos de laboratório da espécie wistar, na Faculdade de Ciências Médicas. Angélica Robert, directora daquela unidade, afirma que as investigações permitiram concluir que a membrana amniótica é "imunologicamente inerte, o que significa que não causa a rejeição da pessoa que recebe o tecido". Segundo a especialista, é retirado um pouco da pele da cauda do ratinho e é enxertada a membrana. Em poucos dias, "está cicatrizado e nascem pelinhos".

DISCURSO DIRECTO

"A TAXA DE CICRATIZAÇÃO É DE 100%", Angélica Robert, Dir. Unidade Queimados do H. São josé

Correio da Manhã – O tratamento dos doentes queimados com a membrana amniótica é eficaz?

Angélica Robert – Bastante, porque a membrana promove a regeneração dos tecidos queimados de uma forma rápida e eficaz. Além disso, reduz as hemorragias e tira as dores aos doentes.

– A membrana pode ser aplicada em qualquer queimadura?

– O tecido é utilizado em queimaduras mais graves, de grau dois e três. A taxa de cicatrização é de 100 por cento.

– Desde quando é que tratam os queimados com o tecido?

– Tratamos doentes com a membrana amniótica desde 1996 e utilizamos por ano cerca de 20 mil centímetros quadrados.

– A membrana é absorvida pelo corpo?

– Sim. Quando é necessária mais pele para o auto--enxerto, usamos a membrana na parte onde vai ser retirada a pele para enxertar.

O MEU CASO: CELINA ANTOS

"É ESTRANHO RECEBER TECIDOS DE OUTRA PESSOA"

Celina Santos foi tratada com a membrana amniótica depois de ter sofrido uma lesão na córnea do olho esquerdo, consequência de uma conjuntivite. Ao Correio da Manhã, conta que antes de sofrer a lesão no olho nunca tinha tido qualquer problema ocular. "Via bem até que me aconteceu este problema, em Abril do ano passado". Foi após uma ida à piscina que Celina começou a ter problemas: uma bactéria provocou-lhe uma inflamação, que se agravou e desenvolveu uma úlcera na córnea.

"Fiz vários tratamentos com medicamentos e fui submetida a uma cirurgia em Dezembro, na qual me deram uma injecção de cortisona na pálpebra. Melhorou, mas não o suficiente", recorda Celina. Pedro Candelária, o médico que trata Celina Santos, decidiu recorrer à membrana amniótica. "Fiquei curada porque a lesão na córnea desapareceu", afirma a paciente. É estranho receber um tecido orgânico de outra pessoa e saber que esse tecido, como é o caso da membrana amniótica, é absorvido pelo nosso organismo, mas estou tranquila porque sei que esse produto foi sujeito a processos de tratamento antes de ser aplicado numa pessoa", refere. A paciente conta que, a partir de agora, só entra em piscinas "com óculos de protecção".

PERFIL

Celina Santos Tem 37 anos, é casada e tem um filho de seis anos. É psicóloga clínica e trabalha na Câmara Municipal de Vila Franca de Xira.

PELE E OSSO GUARDADOS

A Autoridade para os Serviços de Sangue e da Transplantação guarda pele, osso, válvulas, córnea e membrana amniótica. O material é preservado e distribuído pelos hospitais para transplante nos doentes de norte a sul do País. 

APROVADO BANCO DE GÂMETAS

O Parlamento aprovou, no início do ano, um projecto de resolução do Bloco de Esquerda que recomenda ao Governo a criação de um banco de gâmetas(ovócitos e espermatozóides) para ajudar os casais inférteis. A criação do banco evita a importação de tecidos e células reprodutivas. 

ESCLARECIMENTO

A propósito da notícia publicada a 29 de Maio no Correio da Manhã com o título ‘Membrana regenera’, recebemos do Centro de Histocompatibilidade do Sul o seguinte esclarecimento: "Este centro nunca foi responsável pela colheita e transplante de órgãos e tecidos. Além disso, a Autoridade para os Serviços de Sangue e da Transplantação não guarda pele, osso, válvulas, córnea e membrana amniótica. Se o fizesse fá-lo-ia ilegalmente pois o único Banco de Tecidos autorizado para tal é o do CHSul. A Autoridade para os Serviços de Sangue e da Transplantação é, como o nome indica, a autoridade reguladora da actividade dos bancos de tecidos e serviços de sangue". O Centro de Histocompatibilidade do Sul esclarece ainda que "quem faz a colheita de tecidos são os hospitais sob a coordenação dos Gabinetes Coordenadores. O Banco de Tecidos do CHSul processa, armazena e distribui válvulas cardíacas, membrana amniótica e osso. As córneas são ilegalmente mantidas e distribuídas pelos Gabinetes Coordenadores. Quem transplanta são os hospitais e clínicas privadas e quem regula toda a actividade é a Autoridade para os Serviços de Sangue e da Transplantação".

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