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Correio da Manhã

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Museu da Extinção Marinha quer dar a conhecer as espécies que um dia podem ir para exposição

"Muitas vezes as pessoas desconhecem as áreas marinhas protegidas, porque não as veem", disse Gonçalo Silva.
Lusa 2 de Outubro de 2021 às 10:09
Museu da Extinção Marinha
Museu da Extinção Marinha FOTO: Direitos Reservados
Os portugueses conhecem pouco as áreas marinhas protegidas, principal motivo para a criação do "Museu da Extinção Marinha", para mostrar espécies e alertar para a sua proteção.

O museu, virtual, "que não devia existir", já teve sete mil visitantes e quer precisamente evitar que, no futuro, as espécies marinhas possam ser vistas apenas em museus, explicou à Lusa Gonçalo Silva, que lidera o projeto.

"Muitas vezes as pessoas desconhecem as áreas marinhas protegidas, porque não as veem", disse o responsável, num balanço de dois meses de atividade do museu, lembrando que as áreas marinhas protegidas são regiões delimitadas nas quais as atividades humanas são reguladas.

Portugal tem mais de 70 áreas marinhas protegidas, que cobrem cerca de 07% do mar português, segundo o ministro do Mar, Ricardo Serrão Santos, que quer chegar a 2030 com 30% de áreas protegidas. Gonçalo Silva considera que a percentagem ainda é baixa em relação ao que se devia proteger, até porque há áreas marinhas protegidas que o são "só no papel", porque é difícil monitorizá-las com assiduidade.

O museu virtual, uma criação do arquiteto Ricardo Bak Gordon, desenvolve informação de seis dessas áreas, seja na Madeira (área marinha do Garajau), onde "habita" o mero, uma espécie classificada como vulnerável, ou nos Açores, no parque natural da ilha do Faial, com a tartaruga comum em "acentuada redução" e considerada espécie em perigo.

Quem "entra" no museu pode também passar pelas Berlengas, conhecer o peixe-lua, classificado como vulnerável, ou o airo, uma ave símbolo da reserva. E pode ainda aceder ao parque marinho do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina e aos seus sargos, polvos e lontras, ao parque da Arrábida e aos cavalos-marinhos, aos golfinhos e às pradarias marinhas, ou ao parque do Litoral Norte, as suas algas e aves.

O museu faz parte de um projeto científico maior chamado BiodivAMP, que desenvolve ferramentas para a monitorização e proteção de biodiversidade em áreas marinhas protegidas ao longo da costa portuguesa, com financiamento do Ministério do Mar e parceiros como instituições de ensino, associações ou autarquias, entre outros.

"No BiodivAMP este projeto surge na área da proteção dos oceanos. Sentimos que faziam falta ferramentas que ajudassem na gestão e monitorização das áreas marinhas protegidas, mas queríamos chegar ao público", explicou Gonçalo Silva.

O responsável, investigador no ISPA - Instituto Universitário/ MARE - Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, diz que em termos da quantidade de áreas marinhas protegidas Portugal está "em linha com os outros países europeus", fala do "empenho" do Governo em aumentar a percentagem, mas acrescenta: "Entre a vontade e a execução vai muito tempo e dinheiro, e o oceano precisa disto tudo a uma velocidade muito maior".

Mas na proteção dos oceanos, diz, os cidadãos podem ter um papel já, nomeadamente enquanto consumidores, optando por não comer, por exemplo, carne de tubarão ou de raia, espécies com um crescimento lento pelo que não são "uma escolha sustentável".

E o outro papel, sobre o qual começou por falar, que é o de conhecer o que há "debaixo de água", saber que nas costas portuguesas há e sempre houve tubarões, que "não causam problemas, mas que são essenciais para a saúde dos oceanos".

"No museu apresentamos espécies mais emblemáticas de cada local. Queremos mostrar às pessoas que se continuam as mesmas práticas as espécies vão mesmo parar a um lugar como esse. O esturjão europeu existia em Portugal e extinguiu-se", alertou na entrevista à Lusa.

E para começar, acrescentou, é preciso por exemplo diminuir os efluentes das grandes cidades, ou evitar a destruição de habitats, quer seja junto à costa quer seja no fundo do mar, devido à pesca de arrasto.

O "Museu da Extinção Marinha" pode ser acedido por telemóvel e está disponível desde agosto. Em dois meses de existência foi visitado por cerca de sete mil pessoas, segundo um balanço este sábado feito à Lusa.

Gonçalo Silva disse na altura da inauguração que é preciso resolver o problema da degradação dos oceanos e declínio da biodiversidade. "Como só conseguimos proteger o que conhecemos, é da maior importância que as pessoas saibam e valorizem o que têm ´no seu quintal´".

E o arquiteto Bak Gordon reforçou também na altura a importância de qualquer contributo para travar a degenerescência do planeta.

Além desta campanha nacional e do portal, o projeto BiodivAMP está a preparar um Manual de Boas Práticas para a monitorização, gestão e governança de áreas marinhas protegidas na costa portuguesa.

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