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Correio da Manhã

Sociedade

Oncologia com mais mortes por falta de diagnósticos atempados devido ao coronavírus, dizem especialistas

"Temos de retomar a realização de exames auxiliares de diagnóstico", sublinhou a presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia.
Lusa 23 de Abril de 2020 às 19:36
Mulher com cancro
Cancro
Evie Daniels foi diagnosticada com Linfoma de Hodgkins
Mulher com cancro
Cancro
Evie Daniels foi diagnosticada com Linfoma de Hodgkins
Mulher com cancro
Cancro
Evie Daniels foi diagnosticada com Linfoma de Hodgkins
A mortalidade na área da oncologia pode aumentar nos próximos anos devido ao adiamento de diagnósticos, que resultou da luta contra a covid-19, alertaram estaquinta-feira especialistas do setor numa conferência online.

Com o tema "SNS (Serviço Nacional de Saúde) para além da covid-19", a conferência juntou a presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), Ana Raimundo, o presidente da secção regional do norte da Ordem dos Médicos (OM), António Araújo, e o presidente do Colégio de Oncologia Médica da OM, Luís Costa.

Os três coincidiram nos avisos de que a atual pandemia de covid-19 levou ao cancelamento e adiamento de diagnósticos de cancro, que é mais facilmente tratável quando descoberto mais cedo.

"Temos de retomar a realização de exames auxiliares de diagnóstico, porque o diagnóstico em fases mais avançadas da doença" é mais prejudicial, disse Ana Raimundo, afirmando que houve serviços em que o diagnóstico foi reduzido em 80%.

Luís Costa salientou também que "no cancro é fundamental o tempo de diagnóstico e o tomar e cumprir decisões terapêuticas", e avisou que não pode ser esquecido que "o cancro é mais letal que a covid-19", concluindo que "a mortalidade por cancro vai aumentar devido à covid-19", porque os doentes vão aparecer em situações "mais avançadas".

E António Araújo acrescentou: "Houve uma travagem abrupta em todos os passos que dávamos. Consultas e cirurgias diminuíram para o mínimo, houve serviços que praticamente desapareceram, e isto tem um impacto muito grande no diagnóstico e tratamento". Além de que, disse, os "diagnósticos (de cancro) tardios vão ter implicações no futuro" e ter "um impacto muito grande na sobrevivência dos doentes".

No final do debate o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), Alexandre Lourenço, lembrou que devido à covid-19 foi cancelada ou adiada 75% da atividade cirúrgica entre 15 de março e 15 de abril, o mesmo acontecendo com 60% a 70% das consultas externas. Agora, acrescentou, é preciso "estabilizar a rede covid-19" para que seja possível, gradualmente, aumentar a prestação de cuidados gerais.

Os participantes na iniciava da OM e da APAH também concordaram que há sempre algo de positivo que se pode tirar de crises como a provocada pela pandemia de covid-19, como o uso mais intensivo da digitalização e das teleconsultas, que depois de passar a crise devem "ser mantidas sempre que possível", disse Ana Raimundo.

E Luís Costa acrescentou a este respeito: "A covid-19 obrigou-nos a digitalizar" e na verdade um doente não tem de se deslocar ao hospital para saber o resultado de um exame. "Tem que se aproveitar o momento para se fazer esse salto".

E o momento, defenderam, deve ser também para se reorganizarem serviços, de preferência em termos regionais, com os serviços de saúde a terem uma coordenação a nível regional porque não faz sentido "cada hospital por si", como disse António Araújo.

Fazer percursos nos hospitais só para doentes oncológicos, criar espaços próprios para determinados exames complementares, para evitar aglomerações, investir no setor da anestesia ou haver lideranças clínicas fortes foram outras sugestões deixadas na conferência.

Mas foi a questão da falta de diagnósticos de cancro, provocada pela pandemia de covid-19, que mais preocupou os participantes. O impacto, disseram, ainda pode ser minimizado, mas a presidente da SPO falou já do desgosto que será daqui a alguns anos aumentar a mortalidade de doentes oncológicos.

A pandemia de covid-19 já causou mais de 183 mil mortos no mundo e infetou 2,6 milhões de pessoas, desde que apareceu em dezembro na China, segundo um balanço da AFP.

Em Portugal, morreram 820 pessoas das 22.353 confirmadas como infetadas, e há 1.143 casos recuperados, de acordo com a Direção-Geral da Saúde.

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