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Correio da Manhã

Sociedade

Provedor da Deficiência deve ser prioridade

“Em Portugal, a deficiência não é bem tratada. Por isso, é preciso despertar para a exigência”, disse Francisco Janeiro, presidente da delegação de Lisboa da Associação de Deficientes das Formas Armadas, no debate sobre ‘Deficiência: dependência ou vida independente’. Para o ex-militar, a criação do Provedor da Deficiência deve ser prioridade, para que os direitos das pessoas com deficiência sejam uma realidade.

4 de Abril de 2009 às 19:33
O debate contou com a presença de várias associações de deficientes
O debate contou com a presença de várias associações de deficientes FOTO: Natália Ferraz

Fruto de uma parceria entre a Associação Portuguesa de Deficientes (APD) e a Câmara Municipal de Lisboa, o debate teve como base um artigo de Pedro Nuno Oliveira, também ele vítima de deficiência motora, e contou com a participação de diversas associações, como a Associação de Pais para a Educação de Crianças Deficientes Auditivas (APECDA), o Instituto Nacional para a Reabilitação (INR) e Cooperativa Nacional de Apoio a Deficientes (CNAD).

Para Natividade Machado, membro da APD e vítima de deficiência motora, a principal dificuldade reside na falta de formação de técnicos especializados para o auxílio de pessoas com deficiência. “Tinha uma pessoa que me ia ajudar a deitar. Bastava passar-me da cadeira de rodas para a cama mas, como não o conseguiu fazer, foi-se embora e deixou-me uma noite inteira sentada na cadeira. Acham que as pessoas são farrapos, que se lida com elas de qualquer maneira”, disse. Ainda assim, este não é o único episódio que tem para contar. Uma simples ida ao hospital Júlio de Matos é para Natividade uma dor de cabeça. “Cheguei a ser atendida na rua porque não podia subir os degraus. Hoje tem lá um elevador mas a cadeira de rodas não cabe lá. É dinheiro mal gasto. A maioria das pessoas que lidam com o nosso problema não conhece as dificuldades das pessoas com deficiência. Hoje, continuo a ser atendida na rua”.

Por sua vez, Joaquim Cardoso, cego e membro da APD, considera que Portugal tem um longo caminho pela frente e aproveita para denunciar uma situação que diz ser recorrente. “Hoje há uma série de professores cegos que pagam para trabalhar. Como não conseguem ler os testes, pagam a pessoas para o fazerem por eles. Temos leis em Portugal. Elas não são é postas em prática”, denunciou.  Como tal, “é fundamental que os poderes políticos tenham um diálogo com as organizações representativas, com a sociedade. È preciso ultrapassar e estabelecer uma relação entre as disfunções da deficiência e as disfunções do universo exterior”, referiu.

Francisco Janeiro, presidente da delegação de Lisboa da Associação de Deficientes das Formas Armadas, lança mesmo várias questões: “quantos deputados com deficiência existem na Assembleia da República? Quantas habitações sociais construídas pela Câmara Municipal de Lisboa têm condições de habitabilidade para pessoas com deficiência? Será que as faculdades estão esquecidas de que existem pessoas com necessidades especiais?”.

No final do encontro foram apresentadas algumas propostas:: a elaboração de um Livro Verde sobre a vida independente, a regulamentação da actividade profissional de Assistente Pessoal, a criação de um fundo de financiamento com capitais mistos, criação de gabinetes de aconselhamento e apoio ao utente e família.

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