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Caça a tubarões arrasa pescas

A caça desenfreada ao tubarão está a ter resultados devastadores no número de exemplares, colocando estes animais entre os mais ameaçados do Planeta. As consequências, porém, não se ficam por aí. O desaparecimento dos grandes tubarões está a interferir no ecossistema marinho, provocando rombos irreparáveis em espécies pescadas pelo ser humano.
15 de Setembro de 2007 às 00:00
Caça a tubarões arrasa  pescas
Caça a tubarões arrasa pescas FOTO: d.r.
Ironicamente, os humanos, principais predadores do tubarão, podem ver a sua actividade piscatória em risco devido às interferências no patamar mais elevado da cadeia alimentar dos oceanos. Estima-se que sejam mortos, anualmente, cerca de 50 milhões de tubarões para fins comerciais. Segundo organizações internacionais, um terço dos tubarões está ameaçado de extinção. O tubarão-martelo, por exemplo, está nessa lista.
A carne, as barbatanas, o fígado e a pele deste predador têm utilidades várias para o Homem.
Conhecedor deste fenómeno, João Pedro Correia, biólogo marinho do Oceanário de Lisboa, considera o desaparecimento desta espécie uma tragédia, dando um exemplo do quanto pode ser desastrosa a intervenção do ser humano. “Nos anos 60 e 70, na Califórnia, a pesca desenfreada ao tubarão-branco foi tanta que a população de focas proliferou de forma descontrolada”, referiu, acrescentando: “Isso fez com que a população dos pequenos peixes, como a sardinha e cavalas, que fazem parte da alimentação do homem, tenha atingido números muito baixos.”
As consequências manifestaram-se nas populações costeiras: “Aldeias e vilas inteiras, que dependem da pesca, tiveram problemas sociais gravíssimos, como aumento da prostituição, desemprego e toxicodependência”.
Em Março, a revista ‘Science’ publicou um estudo canadiano onde se constata que, enquanto as populações de 11 tubarões de grande porte decaíram drasticamente nos últimos 35 anos, as espécies de peixe por eles caçadas aumentaram rapidamente. Na costa atlântica dos EUA, a população da raia gavião-do-mar aumentou oito por cento, arrasando o número de vieiras disponíveis para captura.
LISBOA TEM PAPEL IMPORTANTE NA PRESERVAÇÃO
wwA Shark Alliance, uma coligação de organizações não governamentais dedicadas à conservação dos tubarões, afirma que Portugal tem a possibilidade de assumir um papel de liderança na protecção da espécie.
Presidindo à União Europeia, o Governo português deverá usar a sua influência de forma a promover um plano de acção para a conservação dos tubarões.
Esta semana, Lisboa foi o palco de um encontro internacional onde estiveram especialistas e associações de todo o Mundo, cujo objectivo é proteger esta espécie ameaçada. Segundo Sonja Fordham, directora de Estratégia da Shark Alliance, “Portugal está muito bem colocado para levar a União Europeia até uma nova era de recuperação de espécies em risco e de liderança internacional numa conservação global do tubarão”.
O plano de acção deverá, de acordo com a Shark Alliance, garantir a recuperação das populações enfraquecidas de tubarões, raias e mantas, restringir a pesca destas espécies, acabar com a prática da remoção das barbatanas de tubarão e proteger o habitat.
PORTUGAL ENTRE OS QUE MAIS PESCAM
Segundo dados da FAO, um organismo das Nações Unidas, os navios de pesca portugueses capturaram, em 2005, 15 360 toneladas de tubarões, com destaque para a tintureira (mais de metade do total). Este valor confere o terceiro lugar a Portugal na lista dos países europeus que mais tubarões pesca.
DETALHES
PREDADOR SENSÍVEL
Os tubarões crescem lentamente, têm um amadurecimento tardio e produzem poucas crias. As suas populações demoram muito tempo a recuperar quando dizimadas pela pesca.
AMEAÇADA DE MORTE
A lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) revela que um terço dos tubarões, de raias e de mantas na Europa está ameaçada de extinção. Os corais entraram pela primeira vez nesta lista, enquanto os orangotangos, os gorilas e alguns golfinhos pioraram de condições de sobrevivência.
CAPTURA AUMENTA
Entre 1990 e 2003, o número oficial de tubarões capturados aumentou 22 por cento. Os países da União Europeia apanharam cem mil toneladas de tubarões.
COMÉRCIO CRESCENTE
A União Europeia é uma potência mundial no comércio global de tubarões. Em 2004, a Europa importou mais de 26 mil toneladas de carne de tubarão. Portugal, em 2006, importou três mil toneladas.
ESPÉCIES CAPTURADAS
Várias espécies de tubarões capturadas em Portugal, como o cação, o barroso, as tremelgas ou os tubarões-anjo, apresentam indícios de sobreexploração.
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