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Correio da Manhã

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Europeus atentos às costas

O mês de Setembro marca para muitos o início de mais uma jornada laboral, do regresso ao stress, à rotina do dia-a-dia e, em muitos casos, a oito ou mais horas passadas longe daquilo que o corpo entende como saudável.
2 de Setembro de 2007 às 00:00
As lesões músculo-esqueléticas são o problema de saúde relacionado com o trabalho mais frequente na Europa
As lesões músculo-esqueléticas são o problema de saúde relacionado com o trabalho mais frequente na Europa FOTO: Jorge Paula
Seja no escritório – em frente ao computador, debaixo de luz artificial e a respirar o ar que sai do sistema de ventilação – seja na fábrica – onde os minutos se sucedem aplicados em tarefas que, de tão iguais e repetitivas, se acabam por confundir – para milhares de portugueses, aos quais se juntam muitos milhões de europeus, é também o regresso das dores de costas, que afectam 24 por cento dos trabalhadores na União Europeia, ou das maleitas musculares, que representam um fardo para outros 33 por cento.
HERÓI DE PLASTICINA
A Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho resolveu alertar as pessoas para a questão dos problemas músculo-esqueléticos – os que mais vítimas fazem entre trabalhadores de diferentes áreas.
Chama-se Napo e é um boneco que sofre na plasticina de que é composto os efeitos das posições menos correctas no trabalho e dos esforços e abusos que se manifestam pela força das tarefas que é obrigado a realizar. Nos vídeos onde surge como protagonista, Napo, criado pela agência europeia, mostra o que não se deve fazer para, logo em seguida, exemplificar de que modo é possível salvaguardar o corpo, evitando os dissabores nos músculos e esqueleto em geral, que constituem a principal causa de baixas médicas um pouco por toda a UE.
“O papel do Napo e dos seus amigos consiste em interessar as pessoas para os temas de segurança e saúde no trabalho”, revela o organismo europeu. Por isso, foram realizados uma série de vídeos de animação que tratam de diferentes temas relacionados com a “gestão da carga pesada”. Mas, reforça a instituição, não se trata apenas “da carga que se transporta, mas ainda de todas as tensões que sofre o organismo como consequência do transporte de materiais ou dos efeitos dos factores do meio ambiente, os riscos e o ritmo dos locais de trabalho”.
Visto que poucos são os que duvidam que os tempos modernos, com todas as evoluções e garantias de melhores condições, não deixaram por isso de ser stressantes – com os imperativos de uma maior produtividade e lucro a governarem o espírito de empresários e empregadores – cabe a todos salvaguardar o corpo.
MILHÕES DE TRABALHADORES VÃO RECEBER INFORMAÇÃO
“Atenção! Mais carga não.” Eis o mote de uma campanha europeia sobre as lesões que afectam o esqueleto dos trabalhadores das mais diferentes áreas de actividade, numa tentativa de chamar a atenção de empregados e empregadores, profissionais da área de saúde, decisores políticos e todos os que tenham algo a dizer sobre um problema que afecta milhões nos locais de trabalho e os acompanha até casa.
A campanha insiste na necessidade de gerir a carga, não só a suportada por trabalhadores da construção civil, mas também a que envolve outros tipos de pressão sobre o organismo. O stress também causa dores lombares, assim como as más posições, que afectam os que passam horas sentados.
Prevenir estes problemas é uma forma de evitar gastos avultados, com as despesas de saúde que destes resultam, com o pagamento de baixas médicas e com as quebras na produtividade. Isto sem falar noutro factor difícil de contabilizar: o sofrimento dos trabalhadores.
Mais e melhor emprego é um dos grandes objectivos europeus. Daí a identificação destas lesões como uma prioridade, assim como o reforço, em todos os países comunitários, da prevenção das doenças profissionais. A campanha terá o seu ponto alto com a Semana Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, entre 22 e 26 de Outubro.
DADOS
NÚMEROS
- Um quarto dos trabalhadores europeus tem dores lombares.
- Os trabalhadores da agricultura e construção são os que mais se queixam, mas todos os sectores são afectados.
- Dois terços dos trabalhadores estão expostos, durante um quarto das horas de trabalho, a movimentos repetitivos de mãos e braços.
- Metade trabalha em posições dolorosas ou cansativas.
- Um terço transporta ou movimenta cargas pesadas.
O QUE SÃO
- As lesões músculo-esqueléticas são lesões das estruturas orgânicas, como os músculos, articulações, tendões, ligamentos, nervos.
- Afectam sobretudo a região lombar, cervical, ombros e membros superiores, podendo também afectar os membros inferiores.
CAUSAS
- Estão relacionadas com o trabalho e são provocadas pela actividade profissional e pelos efeitos do ambiente em que são realizadas essas actividades.
- A maioria são lesões cumulativas, ou seja, desenvolvidas ao longo de um período de tempo prolongado.
- Podem também assumir a forma de traumatismos agudos, como uma fractura provocada por um acidente.
FACTORES DE RISCO
- Físicos – aplicação de força, movimentos repetitivos, vibrações, posturas forçadas.
- Organizacionais – baixo nível de autonomia ou satisfação com o trabalho, tarefas repetitivas executadas a um ritmo acelerado.
- Individuais – antecedentes clínicos, capacidade física, idade, género.
CONSELHOS ÚTEIS
- Baixar o nível de produção pode ser o melhor remédio, evitando expor o corpo a esforços acrescidos, causadores de muitos problemas.
- É importante saber dividir as mercadorias pesadas em vez de tentar carregar tudo de uma só vez.
- O mobiliário deve ser ajustado à altura de quem nele trabalha.
- Para levantar pesos, nada melhor do que equipamento apropriado às tarefas.
- Realizar alongamentos devia ser uma prática obrigatória, pois o exercício físico moderado afasta as dores das costas.
NOTAS SOLTAS
PROBLEMA COMUM
Em 2005, um em cada quatro trabalhadores comunitários queixava-se de dores lombares. As lesões músculo-esqueléticas continuam a ser o problema de saúde relacionado com o trabalho mais comum na Europa.
CUIDADO COM A VISTA
Fixar a vista durante muito tempo causa problemas oculares, frequentes em trabalhadores que passam horas frente ao computador.
NÚMEROS NACIONAIS
Más posições e manuseamento de cargas são responsáveis por 20 por cento dos casos de absentismo em Portugal.
ACIDENTES MORTAIS
Noventa pessoas morreram, desde o início do ano até Agosto, em acidentes de trabalho. Em 2006, houve 157 mortes, 71 das quais na construção civil.
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