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Correio da Manhã

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Olhar feminino e sensibilidade masculina

‘Queer Eye For The Straight Guy’, o novo ‘reality show’ que a SIC prepara, promete transformar a imagem dos machos latinos que se colocarem nas mãos de uma equipa de homossexuais. Resta saber se esta experiência produzirá nos concorrentes os efeitos desejados…
25 de Fevereiro de 2005 às 00:00
Olhar feminino e sensibilidade masculina
Olhar feminino e sensibilidade masculina FOTO: Marta Vitorino
É um lugar comum julgar que os homossexuais são exímios em áreas como etiqueta, moda, gastronomia, cultura e decoração, enquanto o heterossexual comum foge delas como o Diabo da cruz. Mas serão os ‘gays’ os melhores mestres e os machos latinos bons aprendizes? Rita Ferro, Paula Bobone, Maria de Lourdes Modesto, Gracinha Viterbo e Katty Xiomara, mulheres que se destacaram nas áreas abarcadas pelo formato da SIC, tecem os seus comentários.
A orientação sexual não define a imagem social de cada um, é a opinião de Paula Bobone. Para a autora de ‘Socialmente Correcto’, a ideia de que os homossexuais têm uma vocação natural para as boas maneiras é uma falsa questão, explicável, em parte, por uma confusão entre ‘gays’ e metrossexuais. “Os metrossexuais conhecem os códigos de etiqueta, rigorosamente idênticos ao que é apanágio da masculinidade tradicional, abrem as portas às senhoras, acendem-lhes os cigarros… E não são necessariamente ‘gays’”, explica.
Paula Bobone concorda que, embora não seja mais difícil ensinar etiqueta e boas maneiras aos homens do que às mulheres, as regras são um pouco mais rígidas para o sexo masculino. “Há uma tradição de cavalheirismo medieval. Na sociedade o homem bem-educado vê-se pela sua maneira delicada de tratar com as senhoras, o chamado cavalheirismo”, sublinha.
Maria de Lourdes Modesto, que durante anos desvendou os segredos da culinária em programas de televisão vocacionados para o público feminino, duvida que um formato deste género convença os homens portugueses a cozinhar no dia-a-dia. “Regra geral, os homens cozinham por prazer ou brincadeira, mas não querem encarar as responsabilidades da culinária”, defende. E ainda que, tradicionalmente, os grandes chefes de cozinha sejam homens, Maria de Lourdes Modesto acredita que a supremacia masculina já faz parte do passado. “Antigamente, os chefes de cozinha eram só homens porque era um trabalho pesado. Actualmente há grandes chefes de cozinha mulheres. E eu, normalmente, gosto mais da comida feita por mulheres”, afirma.
A escritora Rita Ferro é assumidamente contra a ideia de que a orientação sexual influencia o interesse pela cultura. “Há uma linha estética de homossexuais que têm uma sensibilidade feminina que os pode tornar mais atentos às artes do que o figurino varonil e machão do heterossexual, mas eu não vou muito em estereótipos. Por outro lado, há uma estética homossexual que é o oposto desse género amaneirado”, defende.
COMPETÊNCIA ASSEXUADA
A decoradora Gracinha Viterbo também não encontra distinção entre homossexuais e heterossexuais quanto à sensibilidade artística, nem entre homens e mulheres no que diz respeito aos estilos de decoração. “Eu diferencio o estilo pela personalidade do cliente”, acrescenta. Gracinha Viterbo está convencida de que se a equipa do concurso incluir um profissional de decoração, ele “saberá analisar não só o espaço, como o cliente em questão”.
Katty Xiomara, uma das novas revelações do estilismo em Portugal, encara a escolha de especialistas homossexuais como uma mera forma de conquistar audiências. “A competência não tem que ver com o facto de ser homem, mulher, heterossexual ou homossexual”, afirma. A estilista afirma que os homens estão a par das mulheres na preocupação com a moda e que, actualmente, ambos os sexos demonstram “cuidado com a imagem e com a saúde corporal”.
A transformação sofrida pelos concorrentes durante a participação em ‘Queer Eye For The Straight Guy’ poderá ter resultados passageiros, ou efeitos a longo prazo. Na opinião da decoradora Gracinha Viterbo, os concorrentes poderão aproveitar a oportunidade e os conselhos do especialista “para prolongar o seu bem-estar, quando o profissional sair de sua casa”. “Será uma escolha de cada um dos concorrentes, se irá seguir os conselhos do decorador”, acrescenta.
Rita Ferro, por seu turno, acha que o programa não irá despertar os concorrentes para a arte e para a cultura, uma vez que o considera uma experiência “demasiado breve para produzir qualquer transformação”. “Sem querer ser arrogante, a verdadeira arte não se classifica assim, actua-se de uma maneira mais continuada e não em coisas rápidas com holofotes em cima. Mas se isso vai resultar com algumas pessoas… não sei…”, conclui a escritora.
SIC PROCURA MODELO
Depois de ‘Um Sonho de Mulher’, a SIC parece não querer largar o filão da beleza. A partir de 5 de Abril, a estação de Carnaxide inicia a transmissão de ‘Modelo procura-se!’, um programa apresentado por Carlos Dias da Silva e Hugo Pinto, que prometem acompanhar os bastidores da edição deste ano do concurso Elite Model Look.
“Vai ser um programa de emoção, vamos mostrar tudo o que está por trás desta organização”, garante Dias da Silva. Ana Borges, director da Elite Portugal, quer acabar de vez com o estigma das “meninas bonitas e que não estudam”. “Essa ideia de que os modelos deixam de estudar tem de acabar e este concurso vai ajudar a acabar com essa ideia”, disse.
Numa primeira fase, ‘Modelo Procura-se’ apresenta-se aos telespectadores da SIC nos talk shows diários, o ‘SIC 10 Horas’ e o ‘Às Duas por Três’. O programa vai em crescendo à medida que os candidatos (meninos e meninas…) vão sendo eliminados. As meias-finais serão condensadas em programas de 30 minutos, enquanto a grande final nacional, marcada para Junho, terá transmissão directa no horário nobre do canal.
Realizado em Portugal desde 1994, o Elite Model Look é um dos mais importantes e mediáticos concursos de modelos de todo o mundo. Foi através deste concurso que foram descobertas as famosas top models, como Cindy Crawford e Linda Evangelista, e no caso português, Sofia Aparício, Bárbara Elias e Ana Isabel, entre outras.
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